Capítulo 22
Mariana Bazzi
A água quente escorria pelas minhas costas, como se pudesse limpar os medos, as vozes do passado, as memórias partidas que sempre me impediam de seguir. Pedi ajuda à doutora Samira, porque precisava disso. Precisava me libertar.
— Como superar esse medo, doutora?
— Androfobia não é uma simples aversão, é uma ferida muito dolorida. Um trauma que se instala na alma, te trava e molda seus sentimentos, os pensamentos, até o modo de respirar, instaurando esse medo irracional que você sente. Mas felizmente existe tratamento minha querida. Vamos reconstruir a Mariana aos poucos. Essa escolha de confiar em Ezequiel, ainda que incerta, é um passo enorme.
— Eu confio, doutora.
Estava com o cabelo molhado e o roupão amarrado quando ouvi barulho de pneus. Muitos. Um som fora de lugar para o final da tarde. Fui até a janela, puxei levemente a cortina. E o que vi me fez perder o ar.
Haviam carros chegando de todos os lados, como um enxame de abelhas. Mas entre todos, havia um que me paralisou: a ambulância particular de Ezequiel.
— Samira! — chamei, com a voz tremendo — O que está acontecendo? Por que a ambulância está aqui?
Ela veio correndo, empalideceu ao olhar pela janela.
— Não... essa ambulância não é usada com frequência. Só em emergências graves. E não tinha nenhum resgate programado, a não ser que...
— A não ser que o quê? — insisti, o coração batendo tão alto que parecia ecoar no quarto.
— A não ser que tenha acontecido algo com o próprio Ezequiel.
Eu não esperei mais. O roupão voou para o lado, troquei de roupa no impulso e saí correndo, descalça, cabelo ainda pingando. A porta da frente mal deu tempo de abrir por completo, e eu já corria até o jardim. Meu peito doía, minha respiração falhava, e então eu vi.
Uma maca, nela um homem com um corte no supercílio, uma faixa na cabeça e bastante sangue. Cheguei mais perto.
Era Ezequiel.
— Meu Deus... — sussurrei, tentando chegar mais perto. — Ezequiel!
— Afasta! — a voz cortante de Sara me fez parar. Ela surgiu como um raio, se posicionando como um cão de guarda. — Vai embora, Mariana. Ele não te quer mais aqui.
— Mentira! — gritei, a voz saindo mais forte do que pensei que conseguiria. — E estou aqui porque quero! Bom, pode até ter razão...
Ela me olhou com um ar de triunfo, achando que tinha vencido. Mas eu avancei um passo, com o olhar em chamas.
— Mas eu não vou sair, porque prometi a Ezequiel que ficaria! Então se afasta dele, que agora é MEU! Aliás, nós estamos juntos! — falei sem pensar. Não queria aquela mulher em cima dele. Não posso perder a oportunidade da minha vida por causa dela.

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