Capítulo 24
Mariana Bazzi
Me aproximei da cama devagar. O jantar que ele prometeu agora parecia uma lembrança distante.
— Não durma tanto — murmurei, tentando conter as lágrimas. — Você combinou de fazer eu me apaixonar por você. Como pretende fazer isso deitado, hein?
Fechei os olhos com força por um instante. Senti que a doutora me observava, mas não importava. Precisava que ele ouvisse... mesmo que não pudesse responder.
Puxei uma cadeira, me sentei ao lado da cama e fiquei ali.
Vi um movimento pela janela. Um homem parado do lado de fora. Era alto, com a pele marcada por uma cicatriz que cortava o rosto de cima a baixo. A expressão era fria, os olhos sombrios. A maneira como ele me olhava me arrepiou inteira.
— Quem é aquele lá fora?
A doutora se virou calmamente.
— É o Aaron. Ele trabalha aqui. Antes era... prisioneiro. Cometeu atrocidades. Mas hoje apenas cumpre ordens. Não se preocupe, ele não vai te fazer mal.
Assenti devagar, sem desviar os olhos dele. Não confiava. Mas haviam coisas demais acontecendo pra somar mais uma desconfiança.
Minutos depois, os médicos voltaram ao quarto. Duas figuras de jaleco branco. O mais velho falou com calma:
— Já passou tempo suficiente. Precisamos estabilizar os sedativos e repetir os exames de resposta neurológica. Por favor, precisamos de privacidade.
Olhei para Ezequiel uma última vez antes de me levantar. Toquei seu rosto com a ponta dos dedos.
— Eu volto. Não esquece o que você me prometeu — murmurei.
A doutora me esperou do lado de fora. Caminhamos em silêncio pelo corredor longo e frio.
*
Acordei cedo, ou melhor... mal dormi. Passei a noite deitada numa daquelas poltronas do corredor, com o casaco da doutora Samira jogado sobre mim. Cada barulho de passos me fazia abrir os olhos com sobressalto, esperando alguma novidade sobre Ezequiel. Mas a madrugada passou sem mudanças, e meu coração ainda batia num compasso ansioso.
A doutora apareceu pouco depois, com os cabelos presos de qualquer jeito e uma xícara de café na mão.
— Bom dia... ou algo parecido com isso — murmurou, sentando ao meu lado. — Acabei de falar com um dos médicos. Ele permanece estável, mas ainda desacordado. O repouso vai ser essencial pra recuperação neurológica. Pode demorar um pouco.
Assenti. Me levantei devagar, sem dizer nada, e caminhei até a porta do quarto. O segurança me reconheceu e abriu caminho. A doutora Samira me seguiu com o olhar, depois se virou para ir em direção ao Consigliere, que acabava de chegar.
A sala estava silenciosa. Me aproximei da cama, o coração apertado com cada passo. Ele estava na mesma posição da noite anterior, respirando com ajuda, a cabeça levemente virada pro lado. O curativo ainda no rosto. A palidez.
Era estranho... estar ali e ele não dizer nada. Nenhum comentário ácido. Nenhuma ordem ou olhar desconcertante.
— Por que você não acorda? — sussurrei, me sentando ao lado da cama, tão perto que podia ouvir o ritmo suave da respiração dele.
Estendi a mão e toquei a ponta dos seus dedos. Ainda estavam quentes.
— É estranho sem você me pressionando. Sem ficar me observando daquele jeito que me fazia querer bater a porta e ao mesmo tempo... ficar.
Suspirei.
— Eu sinto falta disso. E eu nem entendo direito por quê. Acho que você estava me desafiando a ser mais do que eu imaginava. Você nem terminou de me deixar nervosa hoje. Nem conseguiu me fazer tremer.
Observei seus traços. Mesmo com os hematomas, ele continuava lindo. Forte. Intenso.
— Você disse que ia fazer eu me apaixonar por você, lembra?
Passei os dedos com cuidado sobre a mão dele, como se aquele gesto pudesse chamá-lo de volta.
Abaixei a cabeça, encostando minha testa na beirada da cama.
A doutora Samira apareceu pouco depois que voltei ao corredor.
— Encontraram o caminhoneiro — disse, sem rodeios. — Ele está no hospital. Parece ser um homem comum, sem ficha criminal. A família estava com ele... chorando. Se quiser, podemos ir até lá conferir.
— Vamos, então. Mas depois... quero visitar o túmulo da minha mãe. Se ainda estiver onde penso que está.
A doutora assentiu com um olhar compreensivo.
— Claro. Meu marido vai levar a gente. Pode confiar nele, é um homem bom.

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