Capítulo 25
Mariana Bazzi
— Doutora! — chamei, abrindo a porta com força. — Acho que ele mexeu os dedos! Eu juro, doutora, ele mexeu a mão.
Samira se virou imediatamente, alarmada, e chamou os médicos. Em poucos segundos, o quarto ficou cheio de vozes técnicas e passos apressados. Me afastei para o canto, ofegante, o coração disparado com aquela fagulha de esperança.
— Ele reagiu... eu senti. Ele apertou minha mão.
O médico mais velho colocou os óculos, ajeitou o estetoscópio no pescoço e se aproximou da cama. Um segundo depois, a monitoração foi revisada, os reflexos verificados, os comandos de teste repetidos.
— Pupilas normais. Sem resposta voluntária aos estímulos — murmurou ele. Depois se virou para mim com aquele olhar calmo demais, como quem já está acostumado a matar esperanças. — Foi uma impressão. Reflexo muscular, talvez. A mente dele ainda está em repouso profundo.
— Não foi impressão — insisti, sentindo o sangue ferver. — Eu sei o que senti!
Samira veio até mim e colocou a mão no meu ombro, tentando me acalmar.
— Eu acredito em você, Mariana. Mas às vezes, o nosso coração nos engana... e a mente tenta preencher o vazio.
Olhei para Ezequiel. Ele estava ali. Cada traço dele era real. Mas parecia tão distante... como se houvesse um vidro invisível entre nós.
Quando todos saíram, decidi que não sairia mais dali. Peguei uma manta fina no canto da sala, puxei a poltrona para mais perto da cama e me enrosquei nela como pude.
— Eu vou ficar aqui com você, Ezequiel — sussurrei. — Mesmo que ninguém mais acredite, mesmo que pareça coisa da minha cabeça... eu vou continuar esperando.
Fiquei horas ali, ora observando, ora cochilando com a cabeça encostada no colchão. Em algum momento da madrugada, acordei com um barulho do lado de fora, mas não me movi. A presença dele, mesmo silenciosa, me mantinha firme.
O quarto estava frio, e o bip do monitor parecia o único som do mundo. Peguei a mão dele de novo, como se assim pudesse aquecer os dois.
— Você não é do tipo que quebra promessa, né? Então acorda logo. Ou vou começar a achar que aquele seu charme era só fachada.
Eu não sei como explicar, mas não sentia medo dele estando nesse estado, não me causava tremor segurar sua mão. Será que estou me livrando desse trauma? Ou será que vejo o Ezequiel diferente? Sinto algo por ele?
A noite passou devagar, quando a luz da manhã começou a se infiltrar pelas frestas da cortina, ouvi passos suaves. Samira entrou com uma expressão cansada, um café em mãos, novamente.
— Mariana... — murmurou, se aproximando. — Você precisa descansar. Vem deitar um pouco no quarto. Eu fico aqui. Prometo.
Me esforcei pra manter os olhos abertos, mas meu corpo já tinha decidido por mim. Samira me ajudou a levantar, como se fosse minha mãe por um instante, e me guiou pelo corredor silencioso.
Antes de sair, olhei uma última vez para ele.
— Não demoro, volto já.
E dessa vez, nem tentei segurar as lágrimas.
Mais tarde, quando acordei, o sol já marcava o horário do almoço no céu. A doutora estava sentada na poltrona ao lado, lendo algo em seu tablet, mas assim que me viu abrir os olhos, sorriu.
— Dormiu bem? — ela perguntou, com aquele tom gentil e calmo que parecia já ser sua marca registrada.
Assenti, ainda sonolenta, e logo me recompus. A primeira coisa que perguntei foi por Ezequiel. Ela me olhou com um brilho no olhar e disse:
— Ele acordou. Está um pouco grogue ainda, mas acordado.
Meu coração disparou. Levantei tão rápido que quase perdi o equilíbrio. Ela se ofereceu para me acompanhar até o quarto dele. Quando chegamos, paramos diante da porta entreaberta. A doutora fez um gesto com a cabeça, me incentivando a entrar.

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