Capítulo 31
Ezequiel Costa Júnior
Yulssef entrou com a expressão contida, o corpo tenso como se já soubesse o que eu iria perguntar.
— Quem matou meu pai, Yulssef?
A pergunta pairou no ar como um estalo seco. Dessa vez não hesitou.
— Sidnei Bazzi.
Pisquei. O nome me atingiu como uma onda gelada. Um nome comum, um rosto que minha mente não conseguia trazer à tona.
— Sidnei... Seria o pai da Mariana? — minha voz saiu rouca, quase incrédula.
Yulssef assentiu lentamente.
— Foi ele, Don. Há provas. Escutas, testemunhas, e até confissão. Posso trazer pra você de novo, sem problemas. Matou seu pai pra roubar a clientela. Queria dominar o ramo. Era um invejoso infeliz. Quis arrancar o império das suas mãos antes mesmo de você crescer o suficiente pra protegê-lo. É por isso que você trás Mariana consigo, para fazê-la pagar.
Permaneci em silêncio, sentindo um nó se formar na base do estômago. Uma parte de mim se encolheu. A outra... endureceu.
— Tem certeza?
— Sim. Você também tem Iris e Soraya sob cativeiro. Estão presas no mesmo lugar que você deixou.
— Mas Mariana disse que prometi encontrar as duas... Eu não entendo.
— Você está torturando a moça. Se sente feliz vendo-a cada dia rastejando mais por migalhas. Assim pagará muito mais pelo pai dela. Inclusive, temos que matar aquele velho filho da puta... Não esqueça do que eu disse, que foi ele quem causou seu acidente — tudo fazia sentido quando Yulssef me falava essas coisas. Não sei o que acontece comigo quando vejo Mariana que não consigo agir como deveria.
— Eu... amava meu pai? — perguntei num sussurro.
Yulssef suspirou e se sentou à minha frente, como um velho amigo disposto a lembrar por mim.
— Você idolatrava ele, Ezequiel. Foi criado pra seguir seus passos. Ele te tratava como um rei. Dizia que você seria maior do que ele um dia. E olha só... está sendo.
Engoli em seco. Algo não encaixava. Como um relógio que faz tic-tac fora do compasso.
— Então... por que não sinto nada?
— Porque está em choque — respondeu com rapidez, com a naturalidade de quem já preparou essa explicação mil vezes. — Está se curando. Recuperando o controle e as lembranças.
Ele se inclinou pra frente.
— Agora precisamos falar sobre o negócio. Você ainda tá perdendo dinheiro com aquelas garotas do leste. Tá dando mole. O cara novo... o Fernando... tá vendendo novinhas mais barato. A gente tem que reagir. Dobrar a produção. Expandir o império.
Senti um arrepio subir pela espinha.
— Produção...?
— As garotas — disse, como se fosse óbvio. — Você já fez isso antes. Comprou, vendeu, organizou leilões... algumas sumiram, sim. Mas foi por descuido. Agora temos controle. Está tudo no seu nome, Don.
— Eu... não lembro disso — falei, e senti a náusea se instalar como uma sombra sob a pele. — Nada disso. Não lembro de vender ninguém. Nem de leilão. Nem de...
— Você está sobrecarregado. Só isso — disse Yulssef, e abriu a maleta de couro que carregava. Tirou vários recortes de jornal, matérias plastificadas. Manchetes enormes:
“Garotas desaparecidas em operação liderada por Don Ezequiel”
“Tráfico internacional cresce sob novo líder”

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