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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 33

Capítulo 33

Mariana Bazzi

O carro parecia um touro nervoso nas mãos da doutora Samira. A cada curva errada, a cada freada brusca, eu me agarrava ao painel como se ele fosse me salvar da morte. E ainda assim, nada disso era mais assustador do que o que nos esperava no final da estrada.

— Eu nunca dirigi à noite nessa estrada — murmurou ela, estreitando os olhos para o asfalto irregular. — E, honestamente, esse farol está meio... oblíquo?

— Você não devia dizer isso em voz alta — respondi entre os dentes. — E, por favor, se alguém olhar demais, diminui. Vai devagar, discreta. Lembra?

— Eu sou clínica e terapeuta Mariana, não agente secreta — rebateu, mas logo soltou um suspiro tenso. — Mas... certo. Vou tentar — sorriu pra mim.

As mãos dela tremiam no volante, mas não tanto quanto as minhas. Eu mantinha os olhos grudados no retrovisor, como se fosse capaz de detectar a ameaça antes que ela surgisse. O carro escorregava sutilmente na lama à beira da estrada, mas o farol, torto ou não, iluminava o portão enferrujado do que parecia ser o tal bordel.

— É aqui — sussurrei, sentindo o estômago revirar.

Samira parou o carro a alguns metros. A casa era grande, de janelas cobertas por cortinas pesadas. Luzes vermelhas pulsavam como batimentos cardíacos erráticos. O som abafado da música fazia o chão vibrar sob nossos pés.

E então um homem se aproximou. Alto, barba por fazer, olhar cansado — mas predador. Ele caminhava até nós com um misto de desinteresse e ameaça, como se não decidisse se devíamos ser ignoradas ou dominadas. Meu coração disparou. O medo me agarrou pelo pescoço, me tirando o ar.

Mas, no automático, levantei o pulso. Estava com a pulseira. O presente de Ezequiel. Mas entre os homens dele, era mais do que um adorno, era um aviso.

O homem parou. Os olhos desceram para a pulseira. E ele recuou.

— Desculpem, senhoras. Achei que fossem... outras — disse, virando-se de volta para a porta.

Eu fiquei paralisada por um segundo. Depois, virei para Samira, que me olhava com uma expressão entre orgulho e espanto.

— Isso ainda funciona. Até mesmo nesse lugar nojento e escondido — sussurrei.

— Claro que funciona. Ele te ama — respondeu ela, com firmeza, antes de completar num sussurro: — E agora vamos tirar ele de lá antes que esse amor seja enterrado.

Passamos pela entrada com facilidade. A pulseira abriu portas, literalmente. Nenhum dos capangas questionou. Talvez ninguém ousasse. Ou talvez já fosse tarde demais.

Dentro, a casa pulsava com gente.

Homens bêbados jogados nos sofás, mulheres de vestidos justos rindo alto, outras com olhares vazios. A música era alta, vulgar, batendo nos ouvidos como um soco. As luzes piscavam em tons de vermelho, azul, roxo. Era como estar dentro de um pesadelo cheio de cheiro de uísque, perfume barato e sexo mal resolvido.

A doutora me encolheu ao seu lado, claramente fora de lugar. Eu, por outro lado, me senti como uma criança sendo arrastada de volta para o porão onde um dia deixei meus gritos.

Mas havia algo diferente agora. A convicção, o desespero, o desejo de salvar Ezequiel.

— Vamos achá-lo, antes que seja tarde.

Ela assentiu e começamos a nos mover entre os vultos, entre os risos falsos e os olhos que julgavam, entre as memórias que ameaçavam me afogar.

Yulssef podia sorrir o quanto quisesse. Eu ia encontrar o Don. E dessa vez, não haveria emboscada.

— Ali — murmurei, agarrando o braço da doutora. — Yulssef.

Em pé, num canto parcialmente iluminado do salão, conversava ao pé do ouvido de um homem baixo, musculoso, com o tipo de olhar que guardava mais cicatrizes que lembranças. O Consigliere sorriu de lado, aquele sorriso que eu odiava, e apontou sutilmente para a sala VIP, protegida por uma cortina espessa e dois seguranças de braços cruzados. O outro homem assentiu e desapareceu por entre a multidão.

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