Capítulo 43
Ezequiel Costa Júnior
O carro parou em frente a uma casa que minha memória se recusava a reconhecer. Era grande, bem cuidada, cercada por árvores que abafavam os sons da rua. Mauro saiu do lado do passageiro, apontando com um leve gesto de cabeça.
— É aqui.
Desci devagar, os olhos varrendo cada detalhe, mas nada ali me era familiar. A porta da frente abriu antes que eu batesse, revelando uma mulher de cabelos presos num coque simples, com um sorriso sereno.
— Don Ezequiel. Seja bem-vindo.
Aquilo me pegou de surpresa. Uma prisioneira feliz? Ou uma atriz muito bem treinada?
— Onde está a Sara? — perguntei direto.
— Foi cuidar de um assunto seu — ela respondeu com calma. — Umas moças que o senhor pediu pra manter sob custódia. Logo ela volta.
Me perguntei porque pedi isso a ela? E que tipo de relacionamento temos? Porque a última coisa que me lembro é de quando esteve na minha cama.
Entrei, relutante. O interior da casa era limpo, organizado, como um abrigo de verdade. Não havia grades. Não havia gritos. Só vozes baixas e passos leves.
— Como vão as coisas aqui? — perguntei, com um nó se formando no estômago. Tentando não demonstrar o quanto estava confuso.
— Algumas deram um pouquinho de trabalho no começo, mas Sara soube como acalmar. Já terminamos a documentação das que precisavam ir pra outro país.
Arqueei uma sobrancelha, o tom mais duro:
— Pra venda?
Ela soltou uma risada breve, quase ofendida.
— Você está bem, Don? Estamos enviando as moças pra lugares seguros. Conseguindo os empregos conforme o senhor pediu… e um bom lugar pra ficar. Está dando tudo certo.
Fiquei em silêncio por um momento. A confirmação que eu temia — e precisava — caía como chumbo no peito. Yulssef tinha me enganado. Criado uma realidade paralela, me mantido fora do próprio sistema que construí. Mas com quê intuito?
— Tem mais algumas no carro — falei. — Cuide delas também, por favor. E quando a Sara voltar, diga que o Don quer vê-la.
— Pode deixar.
Mauro observava tudo calado. Me virei pra ele.
— Quer voltar a trabalhar na minha casa?
Ele ergueu uma sobrancelha, pensativo.
— Olha, eu não queria. Mas vejo que você começou a abrir os olhos. Posso te ajudar, mas terá que confiar em mim.
— Eu confio. Por enquanto, será meu administrador. Vai pra casa comigo e me ajudar a entender o que Yulssef está tramando.
— Amanhã — respondeu. — Tenho umas coisas pra resolver antes. Tudo bem?
Assenti e fomos embora. Quando cheguei em casa, reuni os empregados e anunciei:
— Mauro vai voltar a trabalhar aqui. O recebam bem, amanhã.
A notícia causou murmúrios. Yulssef foi o primeiro a aparecer, rápido como uma sombra.

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