Capítulo 44
Ezequiel Costa Júnior
Caminhei até o portão com passos firmes, ainda com o sangue pulsando do confronto interno que vinha travando. Um dos seguranças manteve a arma próxima ao corpo, atento ao homem parado do lado de fora. Assim que me viu, o sujeito ajeitou o paletó surrado e se aproximou com respeito, mas sem medo nos olhos.
— Estou procurando o agente do Don Ezequiel. — A voz dele era rouca, como quem fumava desde o berço.
Fiquei em silêncio por um momento. A cabeça deu um estalo estranho.
— Eu sou o Don Ezequiel — respondi, estreitando os olhos.
O homem me olhou com estranheza, como quem escutava uma piada fora de hora. Ia abrir a boca de novo, mas uma sombra se projetou ao meu lado. O Consigliere.
— Perdoe nosso amigo aqui — disse ele, colocando uma mão paternal no meu ombro, como se isso fosse normal. — Ele sofreu um pequeno acidente. A cabeça ainda está… confusa. Mas já está quase tudo sob controle. No que posso ajudar?
O homem pareceu hesitar por um instante. O olhar dele caiu sobre mim novamente, buscando alguma confirmação. Mas não falei nada. Queria só observar.
— Tenho uma filha. Queria vendê-la. Não é como as outras... ainda é pura, intacta. Pode render bem.
Senti o estômago embrulhar.
— Não estou interessado em prender mais nenhuma moça, agora — falei, seco, forçando a voz para sair com firmeza. — Cuide de tudo, Yulssef. Depois me traga as informações. Vou ver a Mariana.
— Claro, Don — ele respondeu, sem esconder a leve contrariedade. — Bom... — ele tentou mudar o rumo, andando ao meu lado — Talvez queira ver como funcionava nos velhos tempos. Posso organizar algo mais “tradicional” hoje à noite...
Ignorei completamente e entrei na casa, as palavras dele ressoando como veneno na minha nuca. Aquilo estava me deixando irritado.
Subi as escadas em dois tempos, fui direto ao quarto da Mariana. A porta estava entreaberta, totalmente em silêncio.
As roupas dela ainda estavam lá, mas ela, não. Será que já trouxe pro meu quarto? — caminhei a passos longos.
— Mariana? — chamei, mais alto. Nenhuma resposta.
Apertei os dentes e desci correndo. Encontrei a doutora no corredor. O rosto dela dizia tudo antes mesmo que ela falasse. Estava pálida, tremendo.
— O que aconteceu? — perguntei, a voz um fio de desespero.
— A Mariana… não está em lugar nenhum. Já procurei por toda parte! Ela sumiu!
Meu coração disparou. Um nó se formou na garganta. Saí correndo pelos corredores, abrindo portas, gritando o nome dela.
Foi então que ele apareceu, com a mesma calma irritante de sempre.
— Don... o que está acontecendo? — Yulssef questionou.
— A Mariana sumiu — falei, já sem paciência. — Ela não está em lugar nenhum!
Ele ergueu uma sobrancelha, como se aquilo não fosse novidade.
— Deve ter fugido — murmurou.
A maneira como disse isso... fria, conveniente...
Meu sangue gelou. E pela primeira vez, olhei para Yulssef como um homem que precisa ser vigiado.
— Se ela fugiu… então alguém deixou as portas abertas. Só queria saber como passou por nós dois no portão? Você sabe?
Ele abriu um pequeno sorriso, cínico.
— Talvez seja mais esperta do que pensávamos. Vou mandar procurarem. Não se preocupe, Don.
— Quero todas as imagens das câmeras do quarto! Agora!
— Eu providencio, Don. — Yulssef se ofereceu.
— Você não. Você vai procurar a Mariana pra mim! — olhei para os lados e vi outro rapaz. — Você! Trás as imagens das câmeras.
— Isso não pode ser. Mariana não fugiria, estava muito bem! Alguém deve ter feito alguma coisa pra ela. Com licença! — a doutora saiu praticamente correndo atrás do rapaz que pedi as imagens.

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