Capítulo 50
Mariana Bazzi
Ele só parou quando eu parei.
Nossos lábios se separaram devagar, e por um segundo, fiquei ali, com os olhos ainda fechados, sentindo o calor da respiração dele misturado à minha. Então ouvi sua voz, baixa, grave, com aquele tom que me faz tremer por dentro, mas agora com um sentimento novo.
— Está tudo bem? — ele perguntou, tocando de leve meu rosto. — Você gostou de estar comigo?
Respirei fundo. Meu coração ainda estava acelerado, como se tentasse correr na frente da minha coragem. Mas eu assenti com a cabeça, abrindo os olhos.
— Sim — murmurei. — Eu entendi.
Fiz uma pausa, reunindo as palavras que vinham do lugar mais profundo de mim.
— Lembrei de tudo o que venho aprendendo no meu tratamento, com a terapeuta, com os exercícios, com a verdade... Sim, Ezequiel, eu fui abusada, desrespeitada. Tive minha honra, minha dignidade invadidas por homens cruéis, nojentos. — Engoli em seco. O peito doía, mas era um tipo de dor que me libertava. — Só que... eles não merecem que eu fique presa nisso pra sempre. Não merecem que esse medo irracional que desenvolvi me impeça de ser feliz. Principalmente ao lado de alguém como você.
Ele não disse nada. Mas os olhos dele me escutavam mais do que qualquer silêncio.
— Você me respeita — continuei, a voz um pouco embargada. — Você gosta de mim. Me vê. Me protege. E eu não quero mais fugir disso. Não quero mais deixar esse trauma vencer.
Dei um passo mais perto, até sentir o calor do corpo dele de novo.
— Eu vou reagir. Vou ser forte. Vou enfrentar. E mais que tudo... eu quero isso com você.
As lágrimas vieram, mas não eram de dor.
— Eu quero viver esse amor, Ezequiel.
Ele entreabriu os lábios, surpreso. Então perguntou, com cuidado:
— O que você sente por mim, Mariana? Me responde de verdade. Você tem sentimentos por mim... como uma mulher tem por um homem?
Não hesitei.
— Eu te amo, Ezequiel. — Falei como uma confissão e uma libertação ao mesmo tempo. — Só isso faz sentido pra mim agora. Com você tudo é diferente.
Ele fechou os olhos por um momento, como se as palavras tivessem um peso bom demais pra carregar de uma vez. Depois, voltou a me olhar com tanta intensidade que meus joelhos quase cederam.
— Me dá uma chance de me recuperar pra estar com você? — pedi. — Eu quero isso. Quero mesmo.
Ele encostou a testa na minha, sussurrando:
— O que você quer que eu faça, bonequinha?

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