Capítulo 51
Yulssef
Fiquei olhando pra ela, nua, descabelada, com o olho roxo. Tentei entender o que ela tinha acabado de dizer, mas meu corpo estava latejando de dor, meu cérebro ainda tentando digerir o inferno que vivi naquela cela imunda. Mas Raquel ali, caída no tapete do meu quarto, parecia um lembrete cruel de que as coisas ainda podiam piorar.
— Raquel... repete isso direito — fechei a porta e me aproximei. — Você disse que a doutora fez isso com você?
Ela se sentou devagar, segurando o lençol no corpo. O rosto ainda estava inchado e o sangue seco marcava o canto da boca. Cuspiu no chão com raiva antes de começar.
— Eu planejei tudo. Eu ia acabar com aquela vaca metida a curandeira... — sua voz estava embargada de raiva. — Ela tinha que sair do caminho. Ela sabe demais. Pergunta demais. Enxerga coisas que ninguém devia ver.
— O que você fez, Raquel? — perguntei, já prevendo a merda.
Ela me encarou, com aquele brilho insano nos olhos que só aparece quando ela está obcecada.
— Eu soube que ela ia sair do hospital hoje de manhã. Levei dois dos seus homens, disfarçados, pra seguir o carro. O plano era simples: encurralá-la num dos becos da rua dos fundos, render, e filmar uma humilhação que quebrasse a reputação dela. Ia vazar o vídeo, inventar que ela vendia laudos falsos, que ameaçava pacientes. Tudo. Ela teria que sumir daqui, e nós ficaríamos sem levantar suspeita.
— Você é uma idiota — sussurrei, mas deixei ela continuar.
— Só que a vadia… não era quem eu pensei. Quando ela saiu do carro, se virou como se já soubesse que estava sendo seguida. Quando meus homens saíram da sombra, ela nem hesitou.
— Você tá me dizendo que a doutora Samira bateu em vocês?
— Em mim, Yulssef. Não sei como fez com os outros — Ela apertou os dentes. — Eu mesma fui até lá no fim, quando vi que nossos homens estavam hesitando. Achei que ela fosse fácil. Só uma médica metida a moralista. Mas ela virou pra mim com um olhar gelado e...
Raquel engoliu em seco, o orgulho ferido pesando mais que o inchaço no rosto.

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