Capítulo 59
Ezequiel Costa Júnior
Fiquei observando da colina, no alto da rua paralela, o desfile patético da limusine entrando no estacionamento do Bela 2. Aquela era claramente uma das muitas armadilhas que Yulssef ajudou a montar — e, ingenuamente dessa vez, achou que era dele o tabuleiro.
— Ele está lá dentro? — perguntei, sem tirar os olhos do carro.
— Tá. Idan Avelar entrou conforme o combinado. Os japoneses caíram direitinho — respondeu Mauro, ao meu lado, com o rádio ainda chiando.
— Muito bem... — murmurei. — Então é hora de fazer as peças dançarem. Não lembro do Avelar, mas se diz que é de confiança, eu acredito.
— Sim, fique tranquilo. Ele só estava de férias, passou alguns meses fora, mas definitivamente é de confiança.
Em menos de um minuto, os nossos homens apareceram das sombras. Caminhões fechando a saída da rua. Homens saindo dos becos, dos telhados, de dentro do próprio clube. Eles estavam por toda parte. Quando Mauro passou a ordem, os nossos se moveram em sincronia, como uma corrente de aço.
— Como fez pra que todos te ouvissem? Pensei que estavam sob ordens do Consigliere... — ele me olhou e sorriu.
— Prepare uma boa quantia de dinheiro. Eu disse que se me escolhessem como mandante novamente, todos ganhariam aumento do Don, porque era ordem direta sua.
— Dinheiro não é problema. Yulssef é.
— Exatamente como imaginei...
— Vamos!
Descemos com calma, como senhores de um império que nunca deixou de ser nosso. Quando pisamos no estacionamento, os japoneses já estavam cercando a limusine, armas em punho. Pareciam tão confiantes, e tão ingênuos.
Até verem que dentro do carro não estava eu... mas sim Idan Avelar, o cão mais obediente de Mauro. Ele saiu sorrindo, espalhando aquele mau cheiro insuportável que Mauro comentou, é como uma maldição. Ouvi falar, mas não sabia que era tanto.
Foi então que surgimos. Eu à frente, Mauro logo atrás com pelo menos trinta homens — todos armados com metralhadoras e olhos de guerra. Cercamos os japoneses num silêncio tenso, como um laço se apertando no pescoço de um tolo.
— Boa noite — falei, com a voz baixa, mas suficiente pra todos ouvirem. — Alguém pode me explicar... que tipo de negócio é esse onde estrangeiros invadem território árabe desse jeito?
Os japoneses se entreolharam. Um deles, mais velho, parecia ser o líder. Engoliu seco.

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