Capítulo 60
Ezequiel Costa Júnior
A música no Bela 2 estava baixa, mas constante.
Yulssef começou a servir os copos, com aquele sorriso escorregadio que agora me parece forçado demais. Os japoneses, tensos, aceitaram os brindes. Sentaram-se em nossos sofás, tentando parecer confiantes, mas o suor os entregava.
— A primeira rodada é por conta da casa — anunciei. — Em homenagem à ousadia de vocês, por se meterem num terreno que não compreendem.
Todos beberam. Eu bebi também, mas não a bebida deles, eu sabia o que tinha nela. Mauro foi bem específico: nada mortal, mas o suficiente para revirar estômagos e bagunçar sentidos.
Após a segunda rodada, dois já estavam avermelhados, tremendo as mãos. Um terceiro tentava esconder que a respiração acelerava.
Me aproximei do líder, o mais velho. Toquei o ombro dele, como um pai preocupado.
— Diga-me, Tomodachi, qual era exatamente a intenção da visita?
— S-só negócios... E-economia mútua... — ele murmurou, com a língua já mais lenta.
Olhei para Yulssef, que mantinha a postura firme ao lado do bar, mas com os olhos me vigiando como se esperasse meu veredito. Um cão aguardando se vai receber um osso... ou um tiro.
— Yulssef! — chamei, fingindo afeição. — Nosso Consigliere quer dizer algumas palavras sobre essa tal “aliança”, não quer?
Ele hesitou por um segundo, e então caminhou até o centro. Pegou um copo, ergueu e começou a discursar em seu tom usual, cheio de palavras ocas.
— O Don está comprometido com a paz... — ele dizia. — Queremos fortalecer laços internacionais...
Mas o japonês mais jovem, já entorpecido e com o rosto pálido, vomitou no tapete antes que ele terminasse.
— Ops. — murmurei, com falsa surpresa. — Talvez tenham vindo cedo demais. O clima aqui é pesado, não é?
Yulssef olhou em volta, claramente desconfortável. Sua autoridade na sala escorria pelo chão junto com o vômito do rapaz. Vi que parecia enjoado também.
— Don... talvez devêssemos levá-los para descansar — sugeriu ele, tentando manter algum controle.
— Descansar? — me aproximei dele, rindo. — Eles vieram negociar, Yulssef. Ainda nem começamos.
Toquei seu ombro com força. Aquele olhar dele tentando decifrar até onde eu sabia. Mas a graça era essa: ele não sabia o quanto. E eu pretendia manter isso assim... por enquanto.
Os japoneses começaram a cochichar, um deles claramente em pânico. Já entendiam que não estavam no controle — nunca estiveram. Mas ainda não sabiam o quão fundo era o buraco.
— Tragam mais bebida!
Yulssef tentava sorrir, mas sua mandíbula estava travada. Ele sabia que eu estava o colocando no ridículo diante deles... mas não podia reagir sem revelar o jogo.
— Sirva-os você mesmo, Consigliere — falei, jogando a garrafa na mão dele. — Mostre hospitalidade.
Ele obedeceu, sem opção. A mão levemente trêmula, o estômago claramente embrulhado.
Mauro me olhou de longe, com um pequeno aceno. Tudo conforme o plano.
Estávamos na quarta rodada. Os corpos já se afundavam nos sofás como carne vencida. Um dos japoneses estava praticamente apagado, com os olhos revirando como um peixe fora d’água. Yulssef continuava ali, servindo, suando pelas têmporas. Eu nem o olhava mais. Cada vez que ele me dirigia a palavra, eu respondia para o copo ou para o teto. Nada mais humilhante para um traidor do que ser ignorado por quem ele tenta enganar.
E então, sem aviso, levantei.
— Chega.
Todos pararam. O bar inteiro congelou. Os risos nervosos dos japoneses cessaram como um corte de faca em carne mole. Meus homens, como treinados, levantaram também. Trinta armas apontadas. Nenhum erro, nenhuma hesitação.
— Quero saber... — falei devagar, como quem degusta cada palavra — ...que PORRA aconteceu aqui?
O silêncio foi tão absoluto. Os olhos dos japoneses se arregalaram, e os mais bêbados tentaram se levantar, desequilibrados.
— Conversar? — perguntei, me aproximando do primeiro à esquerda. — É isso que vieram fazer?
Ele balbuciou algo em japonês. Não me importei.
— Yulssef! — gritei, sem virar para ele. — Mais bebida. Enche o seu copo e o dele também.
Ouvi seus passos lentos. A garrafa tilintando na borda dos copos. Todos beberam a ponto de vomitarem nos copos, e apontei pro dele.
— Você também. Vai, mostra que confia na nossa hospitalidade. Está bebendo tão pouco, hoje.

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