Capítulo 61
Ezequiel Costa Júnior
Deixei a a Bela 2 e entrei no carro do Mauro. Vi que Yulssef ficou olhando, mas não me importei com o que pensaria. Não estou suportando olhar pra ele agora, então foda-se.
Ao chegarmos em casa, avisei o Mauro:
— Fique atento a tudo. Cada movimento, qualquer coisa fora do lugar.
— Sempre estou, senhor — desci do carro.
Subi os degraus devagar, observando o interior da casa pela ampla parede de vidro. Mariana estava ali. Linda, serena, rindo de algo que a psiquiatra dizia. Samira a acompanhava como uma sombra protetora. A cena me arrancou um sorriso que não consegui conter.
Esperei a médica se despedir. Assim que a porta fechou, bati levemente com os nós dos dedos no batente.
— Mariana.
— Você demorou. Está tudo bem?
Ela virou-se para mim, surpresa e com aquele brilho nos olhos que me desarmava toda vez.
— Tudo ótimo. Apenas resolvendo alguns assuntos. Quer dar uma volta?
Ela assentiu, curiosa.
— Não está dando ouvidos ao... — olhou a nossa volta.
— Não, fique tranquila. Já entendi o que quis me dizer, e você tem razão. Vou dar um jeito nisso. Yulssef não será um problema.
— Ufa...
Caminhamos lado a lado por um corredor lateral até a ala mais reservada da casa. Um corredor de portas envidraçadas, painéis touch e tecnologia médica de ponta. O cheiro de limpeza, de equipamento novo, que me acalma.
— Essa é minha clínica particular — expliquei, abrindo uma das salas. — A mais moderna de Israel. Pelo menos, foi o que me disseram quando voltei.
Mariana entrou com olhos arregalados, encantada. Caminhava com os dedos deslizando pelas bancadas, os olhos explorando cada detalhe com admiração.
— É impressionante — ela sussurrou.
— Foi feita para atender discretamente gente muito poderosa, importante. Inclusive... — me aproximei, tocando de leve seu rosto — gente como você.
Ela riu, nervosa, mas não se afastou quando me aproximei mais. Nossos rostos se tocaram devagar, e a suavidade do beijo me pegou de surpresa. Mariana cedeu, doce e quente. Minhas mãos encontraram sua cintura, depois suas costas, e ela se aninhou em mim por um instante que desejei congelar no tempo.
Em seguida, sentou-se numa das cadeiras de avaliação, e eu automaticamente me aproximei com o instinto do médico que um dia fui. Peguei um pequeno instrumento da bancada, aproximei a luz dos seus olhos e a observei em silêncio.
— Seus olhos são perfeitos — murmurei. — Sem sinal de miopia, hipermetropia... absolutamente nada.
— Que sorte a minha — brincou, sorrindo. — Você não vai voltar a trabalhar como médico?
Afastei a luz e deixei o instrumento de lado, voltando a encará-la. O sorriso sumiu por um momento.
— Eu... não sei. Prefiro esperar minha memória voltar por completo. Às vezes flashes aparecem, mas... — fiz uma pausa. — E se tudo que estudei foi apagado? E se eu cometer um erro? Não posso arriscar a saúde de alguém.
Mariana me olhou com ternura, e eu vi ali não só curiosidade ou encantamento, mas um carinho crescente. Algo que nascia em silêncio e que eu, mesmo envolto em dúvidas e fragmentos de quem sou, conseguia sentir.
Ela estendeu a mão, e eu a segurei, permitindo que o silêncio falasse por nós naquele instante tranquilo — raro — de paz.
— Então vamos esperar juntos — disse ela.
Mariana ainda estava sentada na cadeira, com a mão entrelaçada na minha. O calor da pele dela, o modo como seus olhos me olhavam sem pressa, com doçura e desejo contidos, me puxava como um ímã.
— Você é linda. Eu já disse isso? — sussurrei, inclinando meu rosto de volta ao dela.
— Já..., mas pode continuar dizendo.
Dessa vez, o beijo foi mais profundo. Não havia mais hesitação. Nossos lábios se buscaram com mais desejo, e ela se ergueu da cadeira, ficando de pé diante de mim. Minhas mãos deslizaram pelas costas dela, puxando-a para perto. Senti seu corpo se encaixando ao meu, como se ela sempre tivesse pertencido ali.
— Eu sonhei com isso — ela murmurou contra meus lábios. — Mesmo sem saber se você voltaria a ser você.
— Talvez eu nunca mais seja o mesmo. Mas com você... — deslizei os dedos por sua nuca, arrepiando sua pele — eu posso descobrir quem quero ser agora.
Mariana mordeu levemente o lábio inferior, e aquilo me despertou um calor antigo. Um instinto que me parecia familiar demais, mesmo com toda a amnésia. A empurrei suavemente contra a maca clínica — fria, mas coberta por um lençol limpo — e ela se deitou, rindo baixinho da ousadia.
— Aqui, doutor?
— Posso não estar pronto pra operar ninguém... mas ainda sei examinar com cuidado.
— Estou gostando da ideia. Será que a paciente também pode experimentar? — colocou a mão sobre meu peito.
— Claro. Vou te ensinar...

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