Capítulo 63
Ezequiel Costa Júnior
Fechei a porta do escritório atrás de mim e respirei fundo, sentindo o cheiro de madeira polida e lembranças distorcidas. Sara se encostou à escrivaninha como se o tempo não tivesse passado, como se ainda soubesse exatamente onde pisar pra me deixar desconfortável.
— É verdade que você não lembra de nada? — perguntou com aquele tom que misturava curiosidade e ironia.
A encarei com firmeza.
— Não de tudo. Algumas coisas voltam em flashes. Lugares, nomes… sensações. Mas não o suficiente pra entender tudo.
Ela sorriu, inclinando o corpo pra frente, como se compartilhasse um segredo. — Eu posso te ajudar, Don. Te lembrar de tudo. De nós dois.
Ignorei a insinuação e fui direto ao ponto.
— Não precisa, Sara — me afastei — Só me responde uma coisa. Aquele velho… o Ezequiel. É verdade que ele era meu pai ou não?
O sorriso dela se desfez em um riso abafado, debochado.
— Claro que não. Ezequiel nunca foi seu pai. Isso era só fachada. Uma mentira conveniente pra proteger você… e o que você representa. Mas ninguém pode saber disso.
Aquilo me fez cerrar os punhos.
— Me proteger do quê?
— De tudo. Dos inimigos dele, dos seus. Você é mais importante do que imagina, Ezequiel. Não é só um Don, não tem o sangue da família Costa. Se alguém descobrir pode perder tudo. Inclusive, o cargo de Don. Principalmente quando foi você mesmo quem matou o velho.
— Eu matei... Porque?
— Era um escroto nojento. Comprava, abusava e torturava mulheres, inclusive sua mãe. Era estéril, e judiava de todas porque nenhuma conseguia lhe dar um herdeiro. Sua mãe foi esperta, engravidou de outro. Ninguém sabe de quem. Só que o velho nunca parou, até que um dia você não pôde suportar.
— Caramba ... — ela se aproximou, a voz diminuindo.
— Nós dois… trabalhávamos juntos. Você tinha um objetivo. Libertar mulheres, resgatar, derrubar a estrutura podre de dentro. Por isso existe aquela outra casa. Aquela casa que você mesmo construiu em segredo. Foi lá que você me enviou quando sofreu o acidente.
Senti o estômago revirar.
— Então o maldito Consigliere me enganou. O tempo todo. — Minha voz saiu carregada de raiva. — E você também.
— Eu? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Eu sempre fui leal a você. Eu te conheço. Você confiava em mim mais do que em qualquer outro. E quando você veio me procurar naquela casa… — ela sorriu de novo — Eu fiquei feliz de verdade. Foi a primeira vez que eu vi que ainda tinha algo dentro de você que me lembrava o que éramos.
Ela deu um passo à frente e estendeu a mão na direção do meu peito. Um gesto íntimo, insistente. Mas dessa vez, eu não permiti. Peguei seu pulso e empurrei de leve, firme.
— Eu não lembro exatamente como estavam as coisas entre nós, Sara. Mas agora eu estou com a Mariana. Prefiro que se afaste.

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