Capítulo 64
Ezequiel Costa Júnior
Empurrei a porta do quarto com um suspiro mais pesado do que pretendia. Meus ombros estavam tensos, e a raiva de antes ainda martelava dentro do peito, mas quando vi Mariana ali, em pé, olhando pra mim com aqueles olhos grandes e desconfiados, algo dentro de mim afrouxou.
Ela estava segurando alguma coisa — talvez uma escova, talvez só buscando algo pra manter as mãos ocupadas. Mas ao me ver entrar, o objeto escorregou de seus dedos e caiu no chão com um som seco.
— Calma — falei, abaixando imediatamente. Peguei o que ela deixou cair e entreguei de volta, devagar. Mas meu olhar se prendeu no dela.
Notei que ela olhava, com uma insistência muda, pra minha cintura. Mais precisamente, pra arma presa ali. A mesma que ainda não tive tempo de arrumar no coldre.
— Está tudo bem? — perguntei com a voz mais baixa, tentando medir a tensão dela.
Ela hesitou. Seus olhos foram da arma pro meu rosto, como se quisesse confirmar algo ali. Depois mordeu o lábio, incerta, e soltou, quase num sussurro:
— Eu não sei o que está acontecendo entre a gente, mas quero saber. Quero entender.
— Vai direto ao ponto, Mariana. Não vou puxar a arma pra você como fiz com a Sara, se é isso que está pensando — respondi, sem rodeios.
Os olhos dela se arregalaram.
— Como sabe?
— Eu percebi que você estava lá.
Ela não esperava que eu admitisse tão rápido. Mas, no segundo seguinte, se recuperou e me encarou firme.
De repente, ela explodiu, a voz embargada de raiva e insegurança:
— Se quer saber? Eu não gostei, tá!? Você deixou ela encostar em você e agora fico me perguntando se será só comigo que vai passar as próximas noites. Se vai ter as suas amantes por aqui. Se isso ou aquilo? Eu não sei o que esperar da gente, Ezequiel! Eu não sou burra! Você diz uma coisa e faz outra! E essa confusão toda me machuca! Tenho vontade de sumir daqui.
Fiquei ali parado, absorvendo cada palavra como se ela tivesse me socado no estômago. Mas em vez de revidar, me aproximei.
Levantei uma das mãos e deixei a ponta do meu dedo deslizar pelos lábios dela com cuidado. Ela estremeceu, mas não recuou.
— Você vai continuar exatamente onde está — murmurei. — Eu nunca te deixaria partir, Mariana.
Meus dedos seguiram do canto da boca pro rosto, traçando sua mandíbula, como quem marca território.
— Então, se quiser reclamar… se quiser exigir… aproveita. Porque daqui você não sai sem eu deixar.
— Eu fiquei porque quis. Poderia ter ido, mas estou aqui. Não brinca comigo Ezequiel...
Ela arfou baixinho, tentando disfarçar. Mas os olhos denunciaram: medo, ciúmes, desejo e uma raiva que vinha da dor.
— Nunca brinquei. Se eu esquecesse de você um milhão de vezes, em todas elas eu não te deixaria sair da minha vida.
Toquei sua cintura e aproximei meu rosto do dela, quase roçando nossa pele.

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