Capítulo 65
Mariana Bazzi
A água escorria pelos meus ombros, quente, contínua, tentando apagar a raiva e o medo que fervilhavam sob a pele, mas não conseguia. O som abafado de Ezequiel batendo na porta, chamando meu nome, me arrancava da tentativa de calma. Cada batida era como um lembrete incômodo de que ele estava ali e eu estava me escondendo, porque tinha medo.
Medo de me machucar, de estar me enganando. Medo de que tudo isso não passasse de mais um papel no teatro da máfia — e que, no final, eu fosse só mais uma mulher na lista dele.
Ele disse que não lembrava o que aconteceu com Sara. Mas e se lembrar? E se acordar um dia e tudo voltar? Ele mesmo falou que não era mais aquele homem… Mas se voltar a ser? Aquele homem antigo tinha várias mulheres. Quantas? Quantas antes de mim? Ele pode querer sua vida de volta.
Ele dizia que queria só a mim. Mas por quanto tempo?
A voz dele ficou mais alta, mais irritada, eu continuei no banho.
A água continuava escorrendo. Eu tremia, mas não era só pelo calor.
Mais uma batida, dessa vez forte, autoritária.
Meu coração deu um pulo.
— Abre essa porta, porque não estou acostumado a ser deixado falando sozinho! Mariana!
Fechei os olhos com força. Minha respiração falhou. Eu o amo. Meu Deus, eu o amo. Mas e se esse amor não fosse suficiente? E se ele cansasse de mim? De minhas inseguranças, das crises, da terapia? E se ele um dia acordasse e lembrasse que podia ter qualquer mulher que quisesse?
Eu não sei quanto tempo fiquei ali parada sob o chuveiro, mas, de repente, ouvi o clique da maçaneta.
A porta abriu devagar.
Me virei, surpresa, nua, enquanto ele me olhava furioso.
— Ezequiel?! Co... Como entrou? — ofeguei, puxando a toalha que estava pendurada ao lado, envolvendo meu corpo molhado.
Ele entrou com os olhos sérios, a expressão dura.
— Com a chave. Não preciso de nenhuma permissão — disse. A voz dele estava firme, seu semblante fechado. — Eu tô na minha casa, Mariana. Eu não vou fazer nada com você, se é isso que está pensando, mas a gente precisa conversar, e agora.
Fiquei parada, sem saber se me escondia ou o enfrentava. Ele sentou na beirada da banheira, respirou fundo e então me olhou.
— Você acha que se continuar me evitando vai se proteger? Acha que fugir de mim vai impedir que eu me machuque ou que te machuque?
Fiquei em silêncio.

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