Capítulo 68
Mariana Bazzi
A casa estava em silêncio, mas minha mente não. Desde que acordei naquela cama enorme, sentindo o perfume que não era meu, os lençóis que não reconhecia, e o peso de tudo o que tinha acontecido, meu corpo parecia leve demais… ou pesado demais. Nem sei mais.
Lembrei da doutora Samira. Será que ela ainda estava aqui? Precisava conversar com ela.
Pensei em discretamente sair do quarto e dar uma olhada, só pra ver se via a médica. Ela sempre me tratou bem. Precisava de um rosto assim agora. Um que não me olhasse como se eu fosse uma peça quebrada de um jogo que não entendo.
Abri a porta devagar, os dedos tremendo contra a maçaneta. Saí no corredor largo, os pés descalços afundando no carpete. Andei devagar, tentando não fazer barulho.
Foi quando, de repente, uma mão me agarrou com força pelo braço e me empurrou contra a parede.
Meu coração disparou e o mundo virou um borrão de pânico.
Era ele. Yulssef.
A mão dele segurava meu ombro com uma força absurda, o corpo colado demais no meu, como uma parede sufocante. Eu congelei. O cheiro de colônia forte, o calor da pele, o peso masculino... Tudo virou gatilho. Meu corpo ficou rígido. A garganta secou. Os olhos buscaram fuga, mas não havia escapatória.
— Você vai parar com isso agora — ele rosnou, os olhos negros queimando de raiva. — Vai parar de encher a cabeça do Don com essas histórias de que ele não é filho do velho. Vai parar de fazer ele hesitar pra comprar puta.
Tentei responder, tentei me defender, mas minha voz não saía. Estava paralisada. Cada centímetro do meu corpo gritava pra correr, mas meus pés estavam colados ao chão.
— Você não entende o jogo, garota — ele continuou, apertando ainda mais meu braço. — Se abrir essa boca de novo, eu corto sua língua. E mais: estou com suas irmãs, você viu na foto e ainda não tomou o seu lugar. Um passo em falso e eu mato as duas. Entendeu?
A palavra irmãs me atravessou como uma adaga. Meus olhos se arregalaram, e o medo me dominou de vez. Ele as tinha, eu sabia disso, e se eu reagisse, elas pagariam.
Meu corpo começou a tremer. E então…
PAM! PAM! PAM!
Tiros. Múltiplos, ecoando pela casa.
Yulssef soltou meu braço com um pulo e sacou a arma em um movimento rápido, já virando na direção do som.
— Merda — sussurrou, olhando ao redor. — Fica onde está!
E saiu correndo pelo corredor, arma em punho.
Eu escorreguei pela parede, o coração disparado. Meu braço doía, minha respiração era curta. Havia confronto, alguém invadiu a casa.
As batidas do meu coração pareciam mais altas que os tiros. Eu ainda estava tentando me levantar quando ouvi passos apressados pelo corredor. Me encolhi de novo, o corpo ainda em alerta. Foi quando a porta ao lado se abriu e alguém me puxou rapidamente para dentro outra vez.
Agora era a doutora Samira.
Ela estava assustada, os cabelos presos de qualquer jeito, e com uma arma pequena nas mãos — algo que eu nunca pensei ver nela.
— Mariana! Fica aqui dentro — ordenou com firmeza, trancando a porta atrás de nós. — A casa está sendo atacada. Eles estão se defendendo, mas não é seguro pra você sair.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir