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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 74

Capítulo 74

Mariana Bazzi

(Pode conter gatilhos)

Encontrei minhas irmãs na entrada da casa. Iris estava com uma blusa branca simples e os cabelos soltos. Soraia prendia os dela num coque alto, como sempre fazia quando queria parecer mais forte do que se sentia. E ao lado delas, a doutora Samira conversava baixo, mantendo o tom calmo que sempre usava com a gente.

Mauro aguardava ao lado do carro com outros dois seguranças, sua presença já não me assusta como antes. Eu dei um aceno discreto para ele, que apenas assentiu com a cabeça. Não precisávamos de palavras. Ele sabia o que fazer.

Entramos no carro em silêncio. O caminho foi curto, mas pareceu uma eternidade.

— Eu ainda não me acostumei com a ideia de que a mamãe está aqui — Iris disse, olhando pela janela. A voz era baixa, quase um sussurro.

— Pelo menos agora podemos vir sempre — completou Soraia. — Podemos vir... tentar entender.

Eu não disse nada. Meu olhar fixo no caminho. Minhas mãos trêmulas no colo.

Quando o carro parou no cemitério, descemos em silêncio. Um vento frio bateu no meu rosto, e instintivamente puxei o casaco mais justo ao corpo. Caminhamos entre os túmulos. Eu sentia cada passo como se fosse um soco na memória. O lugar era cinza, triste, e ainda assim... familiar.

Foi Soraia quem quebrou o silêncio.

— Gente... — ela disse, com o cenho franzido — tem um homem ali. Tá mexendo na lápide.

Paramos.

— É mesmo — murmurou Iris, apertando minha mão sem perceber.

A doutora Samira franziu a testa, Mauro já erguia o braço, chamando os seguranças.

Começamos a andar mais rápido. Meu coração disparava com cada passo. Algo dentro de mim... avisava algo errado. Algo muito errado.

E então, quando estávamos perto o suficiente... o tempo congelou.

Ele se virou e o mundo parou.

Eu não respirava, não conseguia. Minha garganta fechou, minha pele gelou.

Era ele.

O homem diante do túmulo da minha mãe... era o nosso genitor.

O mesmo homem que destruiu a infância que eu nem sabia que estava perdendo. O mesmo que tocou em mim como se eu fosse uma coisa. Como se eu não fosse nada.

Iris e Soraia também pararam, surpresas. Ficaram tensas, não correram. Não sorriram, mas... caminharam até ele.

— Pai... — Iris disse, com a voz estranhamente neutra.

— Oi... — respondeu Soraia, sem qualquer emoção, mas apertaram a mão dele.

Ele sorriu. Aquele sorriso que sempre me deu medo, mesmo antes de entender o por quê.

— Minhas meninas — ele disse, abrindo os braços, mas ninguém o abraçou. O sorriso dele vacilou, só um pouco. E então, seus olhos pousaram em mim.

Eu estava imóvel, a uns dez passos. Não me aproximei.

— E você, Mariana? — ele disse, com a voz doce demais, cínica demais. — Não vai abraçar seu pai?

— Você não é meu pai — falei, com a voz baixa, porém firme. Minhas mãos tremiam. De medo, de nojo.

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