Capítulo 82
Ezequiel Costa Júnior
O estilhaço voou rente ao meu rosto. Senti o corte quente abrindo na bochecha antes mesmo de perceber o que estava acontecendo. A janela se despedaçou com um segundo disparo, e eu me joguei no chão por instinto, puxando a pistola do coldre na cintura.
Yulssef gritou algo, mas eu não ouvi. Não queria ouvir.
Engatinhei até a parede ao lado da janela destruída, respiração pesada, coração socando o peito como se quisesse fugir antes de mim. Levantei só o suficiente para mirar. Vi sombras do lado de fora, eram os malditos japoneses. Três, talvez quatro só no meu ponto de visão. Deveriam ter muitos deles espalhados. Estavam equipados. Disparavam tiros rápidos que vinham pra matar.
Disparei sem hesitar. Um corpo tombou, ouvi o grito abafado. Continuei atirando, recarregando com mãos treinadas, sem pensar. O gosto metálico do sangue escorria até minha boca. Eu estava de volta. No meu inferno familiar.
O barulho cessou de repente.
Nada além do som do vento entrando pela janela quebrada. Esperei alguns segundos, estático, ouvindo... nada. Nem passos, nem vozes. Silêncio.
Me levantei devagar. Virei para Yulssef ainda amarrado, sangrando, tremendo feito um rato encurralado.
— Fica aí, filho da puta. — Rosnei e abri o cofre pegando armas e munições.
Abri a porta do escritório com o cano da arma à frente. O corredor estava vazio. Passei pelas paredes como uma sombra, checando cada canto, sentindo o peso de alguém ainda ali, mas invisível.
Foi só quando cheguei à porta da frente, com os dedos firmes no gatilho, que vi Raquel.
Estava em pé na entrada. Respiração ofegante, suja de poeira e fuligem, vestindo preto. Os olhos arregalados me encarando, como se tivesse visto um fantasma. Ou como se fosse um.
— Ezequiel... — sussurrou.
Minha mão não abaixou a arma. Minha voz saiu mais fria do que eu esperava.
— O que você tá fazendo aqui? — Não confio mais nela.
— Aaron! Você precisa ajudá-lo! Foi proteger aquele seu maldito cachorro e... Está caído no jardim!
— Ah! Caralho!
.
Raquel
.
Quando vi a fumaça subir pela lateral da casa, meu coração afundou. Eu já tinha ouvido do Yulssef que os japoneses estavam se reagrupando. Que ele tinha dado as costas ao Ezequiel. Mas eu queria acreditar que era só boato. Que ele jamais teria coragem. Que ainda havia lealdade, ainda que mínima.
Mas naquele instante, olhando pelos fundos da casa, vi a verdade chegando em botas pesadas, em sombras armadas e sem rosto.
O desespero só tomou forma quando, entre os galhos retorcidos do jardim, vi Aaron.
Meu irmão caminhava distraído, com aquele maldito cachorro do Don que tanto cuida. Aquela criatura que nunca late pra ele, mesmo sabendo o sangue que Aaron carregava.
— Aaron! — gritei. Gritei como se minha garganta fosse rasgar, mas ele não ouviu.
O cachorro viu primeiro, farejou o perigo. Se lançou contra os homens antes mesmo que Aaron entendesse o que estava acontecendo. Meu irmão tentou proteger o animal como um idiota.
Os tiros vieram rápido.
O cão atacou dois, feroz, como se fosse parte do inferno. Mas um disparo pegou Aaron no peito ou no braço, no desespero não vi direito. Ele caiu, como um boneco sem fios. Eu me agarrei ao batente da janela, gritando de novo, sem som, sem ar. O maldito cachorro se colocou a frente dele, os japoneses se distraíram.
Não lembro como saí do quarto. Corri por corredores que mal enxerguei, chamando Ezequiel, esbarrando em portas, tropeçando em meu próprio medo.
Encontrei-o com o rosto sujo de sangue e os olhos em chamas. O cheiro de pólvora e raiva grudado nele como uma segunda pele. A arma ainda em punho.
— Ele tá lá fora — ofeguei. — Aaron... ele foi baleado... tentou proteger o cachorro..., mas ele caiu. Ezequiel, por favor o salve...
Ele não respondeu, só se moveu. Rápido, frio, direto. Saiu como um raio pelo corredor, e por um segundo eu pensei que talvez ainda houvesse salvação para meu irmão.
Mas então ouvi uma voz fraca, mas autoritária me chamar.
— Raquel.
Me virei, como se estivesse sendo puxada por um fio invisível. Ali, no canto do escritório, ainda preso à cadeira, estava Yulssef. Ensanguentado, abatido, mas com aquele olhar venenoso de quem sabe manipular cada alma ao seu redor.
— Solte-me. Agora.
Minhas pernas se moveram sozinhas. A mão hesitou, só por um instante, mas obedeci.
Yulssef mal teve tempo de se apoiar na parede antes de se lançar pela janela destruída. O som dos estilhaços sendo pisoteados, o baque do corpo no chão do lado de fora… Eu só consegui correr até a janela e ver.
Ele não fugia. Estava comandando.
Sinais com as mãos. Gritos abafados em japonês. Ele se curvou, pegou o fone de um dos caídos e passou informações rápidas, com a segurança de quem já tinha tudo planejado.
Eu gelei. Cada célula do meu corpo queria se esconder, mas o alarme soou.
A casa inteira vibrou com aquele som seco, repetitivo, cruel de invasão.
Corri pro corredor, perdida, sem saber pra onde virar. E aí o cheiro me golpeou antes da presença: suor azedo, velho, misturado com desespero.
Avelar.
"Merda!"

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir