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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 89

Capítulo 89

Yulssef

O teto amarelo, mofado, descascando sobre mim, me dizia que nem hospital de beira de estrada merecia aquilo. A luz da lâmpada piscava de tempos em tempos, irritando o pouco da paciência que me restava. Malditos japoneses olhos chatos, que me jogaram aqui como um cão sem dono.

Eu tentava respirar fundo, mas a costela doía. Tudo doía. A porra do olho esquerdo não abria, e o direito só enxergava embaçado por causa do inchaço.

A coxa latejava com força, como se ainda tivesse o canivete enfiado nela. Aquela lembrança específica... Ezequiel. Filho da mãe. Com um sorriso quase sereno enquanto cortava minha carne. Ele e aquela mulher dele, endemoniada. Me acertou com um pedaço da parede, depois com a cadeira, e depois nem lembro mais. Só sei que apaguei e acordei aqui. Jogaram meu corpo como um cachorro velho na porta de um hospital de quinta, longe do perímetro de segurança japonês.

Mal tiveram a decência de me internar sob outro nome.

Ou talvez... nem isso. Quem sabe eles tenham decidido que era mais negócio me deixar morrer em território neutro. Menos risco, menos perguntas.

O rangido da porta me despertou. Um homem baixo, de jaleco branco e máscara cirúrgica no queixo entrou sorrindo como se estivesse em um maldito comercial de remédio.

— Senhor Yulssef — disse ele, animado. — Boa notícia. Vamos te transferir hoje mesmo.

Franzi o rosto.

— Transferir?

Ele assentiu com a cabeça, segurando a prancheta com firmeza.

— Para um hospital particular, com estrutura muito melhor. Seus... patrocinadores acharam que era hora de dar o conforto que você merece.

Patrocinadores? Aham. Japoneses, só podiam ser eles. Finalmente perceberam quem eu sou. Carta boa do baralho, peça-chave no jogo. Deram um tempo pra ver se eu me despedia dessa vida por conta própria, mas... sobrevivi, rastejei, aguentei. Isso tem valor, e eles sabem disso.

Sorri pela primeira vez em dias.

— Já era hora — murmurei, com a voz rouca e arranhada.

O médico deu um leve sorriso em resposta, anotou algo e disse que os enfermeiros viriam me buscar em instantes. Saiu logo em seguida.

Fiquei ali, olhando para o teto com a luz oscilando. Meu corpo doía, a vergonha também. Fui deixado de lado, chutado, esquecido. Mas agora... agora estão me puxando de volta. Talvez ainda haja espaço para mim nesse jogo.

Mal sabem que carta boa também pode virar trunfo... ou bomba. Dependendo de como for jogada.

E dessa vez, vou escolher muito bem quem eu vou explodir.

Nem precisei abrir os olhos pra saber que estavam me vestindo. Sentia o pano encostar na pele, os dedos cuidadosos fechando botões, prendendo o colete. A maca rangia levemente quando me mexia, mas eu estava de boa. Tranquilo, confiante.

Me sentia o máximo.

Claro, né? Eu era importante. Eu avisei esse bando de incompetentes aqui.

Escutei um dos médicos comentar algo sobre um helicóptero.

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