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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 90

Capítulo 90

Ezequiel Costa Júnior

O helicóptero pousou no heliporto da minha casa. Eu desci primeiro, os sapatos impecáveis tocando o chão de pedra polida. Atrás de mim, dois soldados arrastavam aquele trapo humano que já foi chamado de Consigliere.

Yulssef.

O traidor, covarde, inútil.

— Arrastem ele — ordenei, e os homens obedeceram, puxando-o pelo jardim como se fosse um saco de lixo velho. As flores se curvavam sob o peso do corpo molhado de sangue. Meus empregados começaram a sair, assustados com o barulho, mas eu já erguia a voz.

Levei Mariana mais cedo com as irmãs e a doutora Samira para o apartamento. Com elas seguras, posso começar o show.

— Todos aqui! Agora! Quero cada um de vocês presentes.

O pátio se encheu em segundos.

Yulssef mal conseguia se erguer, mas eu o puxei pelos cabelos, o sangue sujando meus dedos.

— Prestem atenção — disse, em voz alta. — Este aqui é o novo faxineiro. Vai limpar cada maldito canto dessa casa com a língua. Se ajoelhar aos pés de vocês e agradecer por qualquer migalha. Deixando cada sapato brilhando. Tem uma língua enorme, se não enxergar bem, a gente arranca as pálpebras.

— NÃO! Eu ainda sou o Consigliere! — ele gritou, cuspindo sangue, o olhar de quem ainda tenta se manter de pé diante da morte.

Ri. Ri alto, como não ria há muito tempo.

— O Consigliere? — apontei para Mauro, que estava parado ali, sóbrio e elegante. — Aquele ali é o Consigliere. Você? Você é o empregado dos meus empregados agora. Vai chupar os sapatos deles com tanto orgulho que vai implorar por mais sujeira.

Yulssef engoliu seco, caiu de joelhos.

— Se foi por causa da Mariana... — ele começou, desesperado. — Eu juro que não toquei nela como pensa. Nunca encostei nela desse jeito. Me dê uma morte digna. Uma morte de Consigliere... por favor...

Caminhei até ele, devagar.

— Uma morte de Consigliere? — repeti, abaixando-me até estar perto do seu ouvido. — Um Consigliere de verdade aconselha. Um Consigliere sustenta a estrutura. Ele é os olhos quando o chefe está cego, a mão firme quando o chefe treme. Ele é o guardião da honra, da lealdade. E me diga... quando, exatamente, você foi isso?

Ele não respondeu. Só chorou. Ajoelhado no chão da minha propriedade.

— Pensando bem, eu ainda estou com raiva o bastante por ter chegado tão perto da minha escolhida — sussurrei.

Virei para Luciana, que tremia ao meu lado. Depois pra Sara que ria.

— Traga um dos seus vestidos. O mais justo. E o salto mais alto que tiver. E rápido.

Ela hesitou. Olhei para ela. Não repetirei duas vezes.

— Avelar! — gritei. — Você vai vestir nosso novo faxineiro. Deixe ele bem bonito. Sem honra, sem glória, sem nome. Vai limpar os sapatos de todos os presentes com esse vestido. E vai sorrir enquanto faz isso.

— Também quero fotos bem bonitas. Vou colocar no álbum da família e mostrar a quem quiser ver depois.

Os empregados recuaram, alguns cobriram a boca. Yulssef gritou meu nome, tentou se arrastar, implorar. Eu não ouvi mais nada.

Já estava de costas, acendendo um charuto.

Porque a humilhação... era só o começo.

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