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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 91

Capítulo 91

Ezequiel Costa Júnior

O dia mal começava a clarear quando Mauro se aproximou. Estava suado, com os braços cruzados, e um ar de cansaço que combinava com o meu.

— Já era. — disse apenas.

Olhei pra ele, depois para o chão manchado do pátio. O vestido vermelho estava jogado como um trapo qualquer, uma das alças rasgada, o salto quebrado ao lado. Nem precisei perguntar o nome.

— Queimem tudo. Corpo, roupa, sapatos. Quero o cheiro dessa desgraça longe da minha casa — ordenei.

Mauro assentiu com um leve aceno de cabeça e sumiu com dois homens.

Sentei no sofá da varanda, exausto. O sol nascia devagar, tingindo as flores do jardim de um dourado suave, como se zombasse do que houve aqui horas atrás. Acendi outro charuto, mas o gosto já não era o mesmo. Meus olhos ardiam — de cansaço ou raiva, nem sei mais.

Apoiei a cabeça no encosto. Só queria ir para o apartamento, ver Mariana. Sentir o cheiro dela, ouvir a voz... Mas o sono me agarrou de repente.

E então, quando abri os olhos… quase pensei que estava sonhando de novo.

— Ezequiel? Meu Deus, você está bem? O que aconteceu aqui? O que aconteceu com você? — abri os olhos rapidamente. Eu conhecia essa voz, e não era da Mariana.

— Valéria? — murmurei, ainda confuso — Tenente Vinícius?

Ela estava ali, a mulher que um dia quis pra mim. Bem na minha frente com o marido. Ela não era mais a garota simples de outros tempos. Os cabelos pretos batiam na cintura, lisos, bem cuidados, brilhando. Usava óculos modernos, que davam um ar intelectual sofisticado. Roupa de grife por dentro da calça jeans escura, cinto marcando a cintura fina, salto alto. Elegante, linda. Uma mulher feita.

Ao lado dela, o marido. Um homem alto, de postura firme.

— Ezequiel... — ela sussurrou, emocionada.

Levantei no mesmo instante.

Primeiro cumprimentei o tenente, e depois a abracei com força. Um abraço de verdade, daqueles que apertam a alma junto. O perfume dela era familiar, também mais maduro. Cresceu, mudou. E ainda assim, era a minha Valéria... Bom, agora é do tenente.

— Como estão? — perguntei baixo, com um sorriso cansado.

Ela riu.

— Você sumiu. Nunca mais deu notícias. E eu... — Ela olhou para Vinícius, depois para mim. — Eu vim por causa da Raquel e do Aaron. O que aconteceu com eles, Ezequiel?

Minha expressão fechou um pouco. Respirei fundo.

— Depois eu te conto com calma. Ainda é cedo demais pra isso. Mal dormi, e mal acordei — Valéria assentiu, séria — Precisa conhecer minha noiva, Mariana. Ela é incrível! — sorri ao contar.

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