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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 92

Capítulo 92

Ezequiel Costa Júnior

Parei de andar. Me virei devagar, sentindo o peso da verdade se instalar como chumbo nas costas. Valéria parou ao lado dele, o olhar preso em mim, como se soubesse que a resposta não seria boa.

— Não. — respondi baixo. — A Raquel… não está mais conosco. Eu sinto muito.

O silêncio que se seguiu foi devastador. Valéria congelou, como se o mundo tivesse parado pra ela. Sei como gosta dos irmãos mesmo eles tendo feito mal a ela.

— O quê? — ela perguntou, quase sem ar. — Como assim “não está”?

— Ela morreu. — falei direto, sem rodeios. Já bastava de rodeios. — Há algumas horas.

Ela arregalou os olhos, deu um passo à frente. Apontou o dedo perto do meu peito.

— Você tá brincando comigo? É isso? Algum tipo de brincadeira?

— Não. É a verdade.

— Você prometeu, Ezequiel! — ela falou mais alto, encostando em mim com a mão, levemente me empurrando. — Prometeu que cuidaria deles! Você disse que faria tudo! Você jurou que... — colocou a mão na cabeça.

— E eu fiz Valéria! — minha voz também se elevou. Não por raiva dela. Por raiva da situação. De mim mesmo. — Eu tentei. Dei abrigo, comida, médico, psicólogo e até castigo pra que mudasse. Dei tempo, espaço. Tentei ensinar. Tentei recuperar o que ela havia perdido.

— E ainda assim ela morreu! — os olhos dela estavam em chamas. — Eu não disse que a queria morta!

— Porque ela me traiu! — rebati, firme, movendo as mãos. — Agiu pelas minhas costas, passou informações, mentiu. Quis jogar o jogo como se soubesse as regras. E antes que pergunte… — encarei os dois — Foi o próprio comparsa dela que a matou, não eu. Inclusive, meu próprio Consigliere. Ambos me traíram.

Valéria estremeceu. Por um momento, pareceu encolher. O tenente a abraçou de lado, segurando sua mão.

— Se ela tivesse ficado do meu lado, talvez ainda estivesse viva. Mas escolheu o outro lado. E nesse mundo, quem escolhe errado… morre — falei.

— Só que eu não sabia que esse mundo matava...

Ela abaixou a cabeça. As lágrimas começaram a cair silenciosas. O perfume dela, que antes me trazia lembranças boas, agora parecia mais amargo.

Vinícius se aproximou e a envolveu pelos ombros.

— Val… — falou com calma, com uma intimidade que estranhei ouvir. — Fica calma. A gente sabia exatamente como era Raquel. Se Ezequiel fez tudo isso e ela não mudou, não tinha muito o que poderíamos fazer.

— A gente devia ter ajudado, mas...

— Minha menina, ela sempre foi complicada. Não podemos culpar Ezequiel assim. O que acha de vermos o Aaron? Depois conversamos com mais calma, tá?

Valéria assentiu enxugando o rosto, mas não olhou pra mim. Depois abraçou seu marido e fiquei de lado, tentando não olhar muito.

— Vocês podem participar do velório e se quiserem podem levar o corpo para o Brasil. — dei espaço. Ela chorou nos braços de Vinícius.

Depois de um tempo. Eles decidiram ver Aaron, e os acompanhei.

Abri a porta do quarto devagar. Aaron dormia. Os aparelhos pulsavam em ritmo estável. O rosto dele estava mais tranquilo, como se tivesse encontrado tranquilidade.

Valéria se aproximou da cama, os dedos tocando o braço do irmão com delicadeza. Me lançou um olhar furioso, disfarcei.

Vinícius ficou ao lado, silencioso. Um pilar.

Eu fiquei na porta, assistindo.

Era estranho ver alguém que um dia você quis com todo o seu coração… pertencer a outro.

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