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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 93

Capítulo 93

Mariana Bazzi

Chegar e ver Valéria ali, em pé, tão perto do Ezequiel, foi como levar um soco que não doeu no corpo, mas afundou no estômago. Ela estava linda, mesmo com os olhos inchados e o rosto abatido pelo luto. Uma beleza suave, madura. Aquela beleza que carrega história. E pior… carrega memórias com ele.

Raquel havia deixado claro em uma daquelas conversas venenosas que ela adorava jogar nas entrelinhas: "O Ezequiel sempre foi apaixonado pela Valéria. Se ela quisesse, ele largava tudo por ela."

Antes ignorei. Tentei, pelo menos. Mas agora, com Valéria aqui, real, presente e com Ezequiel tão perto… era impossível não lembrar.

Por dentro, senti o incômodo subir como ácido. Mas me recusei a me deixar abalar. Não depois de tudo o que construímos. Não depois de tudo o que ele fez por mim, por nós. Agora eu era a noiva dele. E se ele não tivesse me escolhido, ela não estaria aqui com o marido e como visitante — estaria como dona dessa casa. Mas não estava. Esse papel é meu agora.

Respirei fundo, ajustei o vestido e fui até a mesa. Estava ajudando preparar o café com todo o cuidado — pão fresco, frutas, flores no centro. Detalhes que diziam que estava tudo certo.

Soraya apareceu e se aproximou com um ar debochado que ela tentou esconder. Olhou a mesa, depois olhou pra mim, como se estivesse avaliando a pose que eu mantinha com tanto esforço.

— Você tá arrumando tudo como uma verdadeira dona da casa, hein? — ela comentou, puxando uma uva da fruteira.

Antes que eu pudesse responder, Íris se meteu, rindo com sarcasmo:

— Claro, né? O Ezequiel tá de quatro por ela. Mariana não precisa se preocupar com nada. Mas ainda assim, está começando a cuidar das coisas. Isso é muito bom.

Revirei os olhos por dentro. Continuei sorrindo forçado. Mas Soraya continuou:

— É que essa mulher que chegou… ela é bonita. Muito bonita. E deu pra notar como o Don olhava pra ela. Aquele olhar não se dá pra qualquer uma.

Meu coração travou por um segundo. Mas mantive a calma.

— É só uma amiga. — respondi firme, dando de ombros. — E, pra completar… sou a noiva dele agora.

Disse com naturalidade, como quem apenas constata o óbvio.

— Sim, dá pra notar o quanto ele é louco por você — Soraya disse — O bom seria se colocasse um anel no seu dedo — Olhei para minha mão assim como elas — Teria mais segurança, Mari.

— Pra mim isso não faz diferença. O que importa é a palavra dele. — ergui meu pulso — Sem contar que estou com a pulseira que era da mãe dele. Acredito que isso já responda suas perguntas.

Ambas olharam com brilho nos olhos.

— Isso é incrível! — Iris falou deslumbrada, colocando a mão na boca.

— Verdade. — Soraya completou.

Deixei as duas e fui em direção ao quarto. Cada passo era uma guerra entre o que eu sentia e o que eu queria demonstrar.

Abri a porta com leveza e chamei do corredor:

— Ezequiel?

Ele se virou devagar, os olhos encontrando os meus como se voltassem para o presente. Ele estava sério, cansado. E ainda assim, só de olhar, meu peito aquietou um pouco.

— Sim, bonequinha? — avisei que o café estava na mesa com o melhor tom de hospitalidade que consegui reunir. — Vamos deixar vocês com mais privacidade.

Segurei a mão dele com delicadeza, puxando-o suavemente para fora. Ele me olhou com carinho, talvez até com gratidão. Eu só queria que ele percebesse: mesmo morrendo de ciúmes por dentro, eu ainda escolheria agir como uma dama. Sempre.

Porque agora era a minha vez de ser a mulher ao lado dele. E ninguém — nem mesmo o passado — ia me tirar isso.

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