Capítulo 94
Ezequiel Costa Júnior
O silêncio dominou no carro e agora dominava o elevador. O braço dela ainda entrelaçado ao meu, o corpo colado, mas o olhar... distante.
A noite anterior tinha sido longa demais. Yulssef me drenou por completo. Cuidar das formalidades do velório da Raquel, manter a postura diante da Valéria, acalmar os ânimos da casa, proteger Mariana — tudo isso sem dormir direito. Eu só queria chegar no apartamento, tirar esse terno sufocante e respirar. Mas o jeito dela me deixou em alerta.
Quando entramos, fechei a porta devagar, e por instinto, olhei para ela.
— Está tudo bem, bonequinha? — perguntei com suavidade.
Ela me encarou com um sorriso quase imperceptível, aquele tipo de sorriso que não chega nos olhos.
— Estou... só cansada também — respondeu, desviando o olhar.
“Também.”
O modo como ela disse isso acendeu uma luz vermelha dentro de mim. Algo estava errado, eu a conheço. Quando Mariana está cansada, ela reclama, j**a o corpo no sofá, tira os sapatos como quem está se livrando de grilhões. Mas hoje, ela parecia... presa por dentro.
Soltou a bolsa com delicadeza sobre a poltrona, foi até o quarto e começou a dobrar uma manta que nem estava fora do lugar. Esse tipo de gesto mecânico era o jeito dela de disfarçar o que sentia. Mas porquê?
Seria Valéria?
A possibilidade me atravessou como um sussurro incômodo. Mas descartei rápido. Mariana nem sabe que ela fez parte do meu passado. E de qualquer forma, entre nós só há respeito.
Mesmo assim... algo no olhar dela antes, ao lado da mesa, quando falei sobre a Valéria ser "uma amiga", ficou gravado na minha mente. Uma sombra de incômodo que ela tentou esconder com classe.
Soltei um suspiro e passei a mão pelo rosto. Me sentia exausto, mas a presença dela me fazia querer estar bem.
— Vou tomar um banho rápido — avisei. — Me espera na cama.
Ela assentiu com a cabeça, sem dizer nada.
No chuveiro, deixei a água quente escorrer pelas costas e tentei esvaziar a mente, mas era impossível. Cada gesto dela hoje parecia uma dança sutil entre força e insegurança. E, mesmo sem entender completamente o motivo, eu sentia que precisava estar mais presente do que nunca. Porque, se fosse o contrário — se fosse ela com um homem do passado por perto — eu já teria explodido.
Saí do banheiro vestindo só a calça de moletom. A luz do quarto estava baixa. Mariana já estava deitada, virada para o lado, como quem não queria conversa. Mas eu me recusei a deixar esse abismo crescer entre nós.
Me aproximei devagar, sentei ao lado dela e deslizei a mão pelas suas costas nuas, por cima do tecido leve da camisola.
— Vem cá — sussurrei, puxando-a suavemente.
Ela hesitou por um segundo, mas se virou e veio. Acomodei ela no meu peito e fechei os olhos, sentindo o calor do corpo dela contra o meu.
— Não gosto quando você fica assim, bonequinha — murmurei, sem cobrança, só com cuidado. — Se tem algo te incomodando, me diz.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos longos. Depois, apenas apertou a mão contra meu peito e respondeu com um tom baixo:
— Só preciso de você agora. Assim como está.

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