Capítulo 95
Ezequiel Costa Júnior
— Mariana... — minha voz saiu baixa, arrastada, como se cada sílaba estivesse carregando o peso de tudo que Raquel deixou pra trás. — Olha pra mim.
Ela não me encarou de imediato. Estava ali, sentada na beira da cama, braços cruzados sobre o peito como uma armadura mal disfarçada, tentando parecer forte. Mas eu conheço cada nuance daquele rosto. E por trás do olhar firme, havia insegurança. Medo de perder o lugar que ela mesma construiu dentro de mim.
Me aproximei devagar, ajoelhando na frente dela.
— Raquel... era uma mulher vazia, Mari. Vazia por dentro, sabe? Ela sempre foi ótima em envenenar o que era bonito nos outros, porque não conseguia preencher o próprio vazio. — Suspirei. — O que ela te disse... foi só pra te desestabilizar. Ela sabia que não podia mais me alcançar, então tentou te ferir.
— Ela não parecia estar mentindo — Mariana murmurou, os olhos ainda sem encontrar os meus.
— Eu não vou mentir pra você. Um dia, sim, eu quis a Valéria. — Admiti. — Planejei coisas, imaginei uma vida. Mas isso... passou há anos. Anos, Mariana. Ela já tinha alguém. Tem uma família agora e eu também tenho você.
Ela finalmente me encarou. Mas não com alívio. Com desconfiança.
— Eu vi como você olhou pra ela. Valéria é linda, bem resolvida. Eu entendo.
Engoli em seco. A raiva começou a coçar por dentro. Não por ela, mas por Raquel. Por Soraya. Por tudo que estava tentando se meter entre nós.
— É por causa do que a Soraya disse também, não é?
— Como assim? — ela estreitou os olhos.
Levantei, dei alguns passos pelo quarto, esfregando a nuca.
— Eu vi as imagens das câmeras. Ouvi a provocação da sua irmã. Ela plantou dúvida, Mariana, igual a Raquel. Só que pior... porque vem de dentro da sua casa.
Ela empalideceu, surpresa.
— Você escutou?
— Escutei através das câmeras. E sabe de uma coisa? Ela tá certa.
— O quê?!
— Tá certa porque eu te quero, te escolhi. É você que está aqui, que dorme comigo, que eu abraço quando o mundo desmorona. É você que eu amo, porra! Deveria ter uma aliança no seu dedo. Assim nenhum enxerido ousaria se intrometer novamente.
Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Eu não dei tempo. Peguei o celular, discando rápido.
— Mauro? — minha voz saiu firme. — Me encontra no hotel em meia hora. Quero o melhor anel de noivado da região. Não me importa o preço.
Do outro lado, Mauro tossiu, surpreso.
— Espera... tem o da sua mãe. O anel dela. Você quer que eu leve?
Fechei os olhos por um segundo. A imagem da minha mãe passou como um sopro de memória.
— Sim, pode trazer.

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