Capítulo 97
Ezequiel Costa Júnior
A porta se fechou atrás de mim com um estalo surdo, mas meu sangue ainda fervia com o que acabei de ouvir.
A intenção era sair para resolver um assunto da Zion, mas assim que atravessei o hall, algo me fez parar. Talvez fosse o jeito tenso com que Mariana falava, talvez só meu instinto... mas acionei o celular, puxando o acesso das câmeras internas da casa.
E lá estavam elas.
Soraya, venenosa feito serpente, tentando minar a confiança da minha mulher. De novo.
Assistir à cena pela tela era como observar um incêndio se alastrando devagar. Soraya sorria enquanto lançava cada palavra como uma faísca — Valéria era o amor da vida dele... não se sente ameaçada?
A Mariana até tentou disfarçar, mas eu vi a tensão no rosto dela, mesmo na gravação. Vi o sangue pulsando no pescoço. Ela se segurava, mas não deixava barato. Me defendeu com firmeza.
E foi aí que Soraya, como a cobra teimosa que é, subiu o tom. Aposta, provocação. "Aposto que ele vai no velório da Raquel. Só pra ver a Valéria..."
E o pior: tentou usar minha mulher pra confirmar isso. Queria fazer dela isca.
A imagem do meu anjo com aquele anel da minha mãe no dedo me deu uma calma violenta. Mariana não se rebaixou. Recusou, disse que não precisava disso, que confiava em mim.
Era a primeira vez em muito tempo que alguém me defendia com tanta fé mesmo sem me ver. Mesmo sem me ouvir.
E isso... me quebrou por dentro de um jeito que só ela consegue.
Dei um soco no painel do carro. Não forte o suficiente pra quebrar, mas pra doer.
Liguei o motor e fui, acelerando mais do que devia.
Não, eu não ia no velório. Não por Valéria, Mariana ou por Raquel. E sim, porque eu tinha ajudado aquela garota, tirado ela da lama por puro favor, por senso de dívida com a irmã dela. Mas ela não fez por merecer, acabou ali.
O que Soraya não entende é que eu não fico onde já fui desrespeitado.
O que Mariana ainda precisa entender — e vou deixar isso bem claro — é que eu posso perdoar o mundo por ela, mas não quem tenta colocar dúvida entre nós dois.
Dirigi até a frente de um galpão discreto da Zion, onde um carregamento novo de armamentos aguardava inspeção. Desci do carro e fui direto pro portão, mas não antes de pegar o celular novamente.
Vi a última parte da conversa.
— “Nem vem, Mariana. Eu não vou em igreja nenhuma até ter certeza de que Ezequiel não foi no velório.”
Porra! Vou enviar essa Soraya pra longe daqui.
Soraya nem imagina o quanto acaba de cavar a própria cova comigo. Se acha mais esperta do que realmente é. E agora, vai sentir o peso disso.
Mariana sim vai receber tudo que merece. Porque quando alguém confia em você na sua ausência… esse alguém merece o mundo.

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