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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 98

Capítulo 98

Ezequiel Costa Júnior

Entrei no galpão da Zion com o sangue ainda quente. Cumprimentei os soldados no portão com um aceno breve e fui direto à sala onde os carregamentos passavam pela primeira inspeção. Tive que responder a algumas perguntas burocráticas — número de série, procedência, os detalhes de sempre que estavam bem bagunçados por culpa de Yulssef —, mas minha atenção já estava no portão, nas câmeras, no momento que eu sabia que estava se aproximando.

E então, o carro dela chegou. O do soldado, trazendo Soraya com aquele ar vitorioso e sorriso de quem acha que está no controle. Ela saiu do carro ajeitando o cabelo, toda cheia de si.

Mas o que realmente me prendeu foi o carro que veio logo atrás com Mariana.

Meu peito deu um salto só de vê-la descer com aquele olhar determinado.

Fiquei um pouco afastado, assistindo tudo de longe. Ela nem me procurou com os olhos. Só marchou na direção da irmã.

— Soraya! — a voz de Mariana estava bem alta — Você não vai entrar — a segurou pelo braço.

A irmã ainda tentou disfarçar a surpresa, mas era tarde demais. Mariana já estava diante dela, os olhos faiscando.

— Como é? — Soraya riu, debochada. — Vai me impedir?

— Eu não vou permitir que você entre aqui e muito menos que entre de novo na casa do Ezequiel. Não tem o direito de vir atrás dele assim!

— Você tá sendo ingênua. Se não foi no velório agora, vai depois.

— Isso não é da sua conta. Agora vai embora e fica na casa do seu pai, com quem você parece combinar mais ultimamente.

Soraya bufou, cruzando os braços.

— Você tá me expulsando? Sério? Só porque eu quis abrir os seus olhos?

— Não. Eu tô te colocando no seu lugar. Você teve todas as chances. Ele te tratou com respeito e eu também. Mas você não soube aproveitar.

— Você é egoísta! Quer Ezequiel só pra você. Quer a grana dele só pra si — Soraya cuspiu, o veneno escapando da boca. — Desde sempre! Você acha que o mundo gira ao seu redor!

E foi aí que Mariana explodiu. Uma lágrima de raiva nos olhos, o rosto corado. A mão estalou no rosto da irmã com força. O tapa ecoou no ar e me arrepiou da cabeça aos pés.

— Egoísta, eu? EU?! — Mariana gritou. — Você sabe o que é viver trancada, esquecida, sem voz? Eu fiquei num lugar horrível, sozinha, sem saber nem o que era liberdade! Enquanto você e a Iris viviam livres, rindo, esquecendo que eu existia! E eu aqui tão preocupada com vocês.

Soraya cambaleou um pouco, a mão no rosto, sem palavras. Bem feito.

— Mariana tem razão — disse Iris, com a voz baixa — Você sempre teve inveja da vida que ela tem. Mas a verdade é que ela conquistou tudo isso. E você nunca conseguiria aceitar. Ela não teve as chances que tivemos e agora conseguiu tudo, deveria estar feliz por ela e não causando entrigas!

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