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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 99

Capítulo 99

Sara

Fazia dias desde o ataque. A cicatriz no meu abdômen ainda ardia, mas nada me doía tanto quanto a raiva que eu sentia. Raiva de mim mesma, por ter ficado vulnerável. Por ter deixado alguém me salvar. E, principalmente, por não conseguir parar de pensar em quem me salvou.

Aaron.

Desde ontem, ele ficou em repouso após um leve ferimento de bala e um corte feio no braço. Todos disseram que ele estava se recuperando bem, mas algo dentro de mim... me empurrava até ali. Por curiosidade, só isso. Nada além.

Subi as escadas devagar. O corredor estava em silêncio. Bati de leve na porta entreaberta e espiei para dentro.

Ele estava deitado, sem camisa, com uma atadura no ombro e o abdômen definido parcialmente à mostra. Os olhos estavam fechados, os cílios longos descansando na pele bronzeada. Por um instante, fiquei ali, parada, olhando. Ele era bonito demais. Aquela cicatriz no rosto não o desfigurava — pelo contrário, fazia dele ainda mais interessante. Um perigo com traços de redenção.

Antes que eu recuasse, os olhos dele se abriram. Escuros, diretos. E, no instante em que me viu, sorriu.

— Que bom que você veio — disse com a voz rouca de sono, mas cheia de alívio.

Cruzei os braços, escondendo o desconforto.

— Foram ordens do Don — menti, olhando para o chão. — Só vim ver se está tudo bem, porque depois ele vai perguntar.

Ele sorriu mais, daquele jeito que me irritava porque… funcionava.

— Ainda vou viver muito. Não precisa se preocupar.

— Nunca estive.

Foi nesse momento que ele esticou o braço e segurou minha mão. O gesto foi tão inesperado que meu corpo congelou. Sua pele era quente, e os dedos entrelaçaram os meus com naturalidade, como se já fosse hábito.

— Se você soubesse como posso te fazer sorrir mais… Como posso cuidar de você — ele murmurou.

— Eu não preciso disso. — Tentei soltar a mão, mas ele apertou, ainda gentil. — Foi pura sorte você ter me socorrido naquela invasão. Consigo me virar sozinha.

— Não. — Seus olhos agora estavam sérios. — Aquele dia eu vi que o Yulssef estava armando pra você. Se eu não tivesse puxado, talvez não tivesse sobrevivido.

Minha respiração falhou.

— O quê? — Me aproximei, surpresa. — Foi o Yulssef quem atirou em mim?

Aaron assentiu, devagar.

— Foi. Eu já estava de olho nele há um tempo. Vi quando ele apontou, e só tive tempo de te puxar. Ele ia te matar e eu não poderia dizer nada, ele estava me ameaçando.

Minhas mãos tremeram. O chão pareceu girar por um segundo. Eu confiava em Yulssef. Ou achava que confiava. E ele tentou me matar?

Olhei para Aaron, e pela primeira vez, vi nele algo que não fosse só insolência.

— Obrigada — murmurei, quase sem voz.

Sem perceber, meus dedos deslizaram e acariciaram a mão dele. Foi instintivo. Uma forma muda de reconhecimento. Quando percebi, puxei rápido, envergonhada.

E foi exatamente nesse segundo que a porta se abriu com um estalo.

Mariana entrou no quarto com a expressão concentrada, segurando uma bandeja.

— Ai, desculpa, não sabia que estava com visita.

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