O som abafado de uma playlist animada tocava ao fundo, enquanto roupas estavam espalhadas por toda parte — em cima da cama, da cadeira, do encosto da janela.
Francine experimentava peças e se olhava no espelho com ar crítico.
Malu estava sentada no chão, de pernas cruzadas, com um pão de queijo numa mão e o celular na outra, observando tudo como uma juíza de desfile de moda.
— Malu, tô precisando comprar umas roupas e uma bolsa nova, bora bater perna?
— Ah, não sei não… você sempre prova tudo e nunca leva nada! — respondeu, sem tirar os olhos do celular.
Francine virou para ela, colocando as mãos na cintura.
— O que posso fazer se meu gosto não é convencional?
— Com um corpo desses você devia vestir qualquer coisa e se sentir maravilhosa! — disse Malu, apontando teatralmente com o pão de queijo como se fosse um microfone.
Francine deu uma risadinha presunçosa e jogou o cabelo para trás com um exagero proposital.
— E eu me sinto. — piscou. — Só não quer dizer que eu vá comprar.
Malu bufou, rindo também.
— Eu devia cobrar cachê pra te acompanhar nesses rolês, sabia?
— Cobrar com o quê? Com mais pão de queijo?
As duas riram alto.
Francine pegou uma última peça do cabide e caminhou para o banheiro:
— Se veste também. Dez minutos e a gente sai.
Malu gritou do quarto:
— Já vi esse filme antes! Dez minutos da Francine são quarenta reais no parquímetro!
Francine só respondeu com um riso abafado, a porta do banheiro se fechando atrás dela.
O sol estava alto, mas uma brisa suave deixava o clima agradável.
As ruas do centro fervilhavam com gente indo e vindo, vitrines coloridas e ambulantes vendendo de tudo um pouco.
Francine e Malu caminhavam lado a lado pela calçada de pedras portuguesas, cada uma com um sorvete na mão.
Malu se lambuzava com o de chocolate enquanto tentava manter a dignidade, e Francine andava como se estivesse desfilando numa passarela — mesmo com um sorvete de morango na outra mão.
— Por que eu sempre fico toda melecada e você parece ter nascido com sorvete na mão, hein? — reclamou Malu, limpando a boca com um guardanapo amassado.
Francine deu uma risadinha, toda confiante.
— Dom natural. Ou melhor, treinamento de anos em eventos e editoriais. Sorvete sem dignidade era motivo de bronca da coordenadora de casting.
Forte. Rápido. Inevitável.
— Não pode ser... — murmurou.
O carro seguiu, mas os olhos dele ficaram presos naquela calçada. Naquela mulher.
Naquela certeza: era ela.
— Pare o carro. — disse, sem tirar os olhos da calçada.
— Senhor, aqui não tem lugar pra estacionar — respondeu o motorista, hesitante.
— Então só pare o carro que eu vou descer.
A resposta veio firme, sem espaço para contestação.
— Sim, senhor.
O carro encostou no meio-fio como deu, atrapalhando um ciclista que passou xingando baixinho.
Dorian nem piscou.
A porta foi aberta e ele desceu rápido, com um passo que misturava controle absoluto e urgência contida.

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