O banho quente fez pouco para relaxar Dorian.
Mas bastou para restaurar a fachada — o olhar frio, o andar preciso, o terno impecável mesmo dentro da própria casa.
Na sala de jantar, tudo seguia seu ritual: mesa posta, luz baixa, louça em silêncio.
Os funcionários mantinham o mesmo padrão de distanciamento que ele sempre exigiu.
Ele sentou-se sozinho, como sempre.
Não perguntou nada. Não agradeceu.
Apenas levantou o guardanapo com um movimento mecânico e começou a refeição como se estivesse num piloto automático de luxo.
A conversa com Cássio tinha surtido efeito.
As horas de trabalho intenso, reuniões e relatórios tinham funcionado como anestesia.
E agora ele se sentia de volta ao controle.
Mas era só aparência.
Porque, entre um gole de vinho e outro, Dorian voltava à busca silenciosa: a mulher do baile.
Enquanto mastigava, imaginava formas de refazer o caminho.
Quais rostos passaram por ele? Quais vozes? Qual gesto poderia ter denunciado algo?
Cada vez que uma porta se abria, ele erguia os olhos.
E sempre abaixava em seguida, voltando ao prato como se nada tivesse acontecido.
Era um jogo de esconde-esconde onde ele nem sabia se ainda queria encontrar… ou apenas continuar procurando.
Enquanto isso, Francine estava jogada na cama como se o colchão fosse seu único aliado no mundo.
De pijama e cabelo preso no alto da cabeça, balançava um pé no ar, nervosa.
Malu, na cama de baixo do beliche, mexia no celular enquanto ouvia.
— Mulher, que sufoco! — sussurrou Francine, como se até as paredes pudessem dedurar.
Malu deu uma risada abafada.
— Cara, ele tá tão na sua!
Francine virou de lado, encarando a janela.
— Que maluco obcecado! Eu sabia que Dorian era excêntrico, mas nunca imaginei que ele seria tão... obstinado. Tô por um fio. Mais um passo em falso e ele junta as peças.
— Agora não adianta chorar, meu amor. Devia ter pensado nisso antes de seduzir o patrão. — Malu respondeu com a ironia de quem já tinha avisado desde o começo.

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