Tentando encontrar uma resposta à altura daquela provocação, Ava endireita os ombros com delicadeza, recobrando o controle pouco a pouco. Sem o encarar, fixa os olhos no prato à sua frente e comenta, em tom frio, quase casual:
— Que curioso você se lembrar do meu rosto… considerando que deve ver muitos parecidos, noite após noite — diz, com frieza.
Ele respira fundo, tentando manter o controle enquanto responde.
— Você está equivocada. Depois do seu rosto… não dei espaço para mais ninguém.
Surpresa com a resposta, Ava solta uma risada seca, sem emoção, e ergue o copo de suco de laranja com elegância, antes de encará-lo com um sorriso irônico.
— Ah, claro… Considerando que a sua secretária é um caso antigo, deve considerá-la antes.
— Já te disse que não aconteceu nada entre nós hoje — responde, impaciente. — Tudo o que você viu… foi um mal-entendido. Tanto que eu a mandei embora.
— Mandou-a embora apenas porque eu os flagrei — ironiza, cruzando os braços, ainda com aquele olhar desafiador.
— Mandei embora porque aquilo foi inaceitável. Porque respeito você — rebate.
— Respeito? — ela solta uma risada amarga.
— Sim, eu a respeito — continua Hector, com convicção na voz. — Mesmo que você não consiga enxergar isso agora.
Cansada, Ava revira os olhos, já sem paciência para suas palavras. Lentamente, se levanta da cadeira e pega o prato sem delicadeza. O gesto é claro: ela não está disposta a ouvir mais nada.
— Acho que vou comer com a Doris — diz, fria, sem sequer olhá-lo. — Lá deve estar muito mais interessante do que aqui.
E antes que Hector possa dizer qualquer coisa, ela se vira e sai da sala sem olhar para trás, deixando o silêncio sobre a mesa.
Assim que entra na cozinha, encontra Doris sentada em uma poltrona próxima à televisão, com um hambúrguer nas mãos e os olhos atentos ao que parecia um filme de romance. A luz da TV iluminava suavemente o ambiente, criando uma atmosfera acolhedora e simples, exatamente o que precisava naquele momento.
— Posso ficar aqui? — pergunta em voz baixa, segurando o prato. — Prometo que não vou fazer barulho.
Embora um pouco surpresa com a presença inesperada, Doris apenas assente com um leve sorriso e aponta para a cadeira vazia ao lado.
— Claro.
Em silêncio, Ava se acomoda e começa a comer, observando a tela ocasionalmente. Lentamente, seus ombros vão relaxando. As falas do filme, os gestos delicados dos personagens e a simplicidade daquela cena a envolvem. Quando percebe, está entretida… e confortável.
Quando o filme chega ao fim, Doris vira o rosto para ela, com um sorriso discreto.
— Isso foi bonito, não foi?
Ava demora um pouco para responder. Ainda está imersa na última cena.
— Sim… muito lindo — diz, com um leve suspiro. — Mas essas coisas só acontecem na ficção. Na vida real, não existe esse tipo de amor.
Encarando-a por alguns segundos, Doris parecia ponderar se deveria dizer algo ou não.
— Às vezes… a vida real só precisa de um pouco mais de tempo — diz, por fim. — E um pouco menos de orgulho.
— Para isso acontecer na vida real… — rebate, com a voz mais baixa, quase pensativa — eu teria, no mínimo, que encontrar um homem que prestasse. E, sinceramente, isso parece cada vez mais impossível.
Há algo na voz de Ava que não é apenas revolta, é cansaço. Um cansaço profundo, de quem já tentou acreditar… e se decepcionou mais vezes do que gostaria de admitir.
— Homens que prestam não costumam vir prontos, minha filha — responde com calma, dobrando o guardanapo sobre o colo. — Alguns demoram para entender o que têm nas mãos… outros só aprendem depois de perder.
— Eu não sei se tenho essa paciência, Doris — confessa. — Eu acreditei no amor com todo o meu coração… com toda a minha alma. Mas tudo o que recebi em troca foi uma punhalada nas costas.
Ela faz uma pausa. Seus olhos começam a marejar e, por mais que tente disfarçar, a dor transborda pelas entrelinhas da sua expressão.

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