Sem sono, Ava caminha lentamente até a área externa da casa. A noite está silenciosa, e o ar fresco contrasta com a leve umidade que paira no ambiente.
Ela se aproxima da piscina e logo nota o vapor suave que se ergue da água. A temperatura estava perfeita para um mergulho, quente o suficiente para aquecer a pele, convidativa o bastante para tentar a alma.
Por alguns segundos, ela apenas observa. As luzes refletidas na água ondulam com leveza, como se dançassem no silêncio da noite.
E então, sem que percebesse inconscientemente, sua mente a trai.
Uma lembrança emerge, viva e repentina: o beijo.
Havia beijado Hector… bem ali na piscina. O calor do toque dele, o peso das mãos em sua cintura, o desejo que tentava negar.
Ela pisca, tentando afastar a memória. Mas é tarde. O gosto daquele momento ainda estava gravado — na pele, na boca, no peito.
“Por que estou pensando naquele idiota?” — Pergunta-se em silêncio, sentindo a inquietação crescer no peito.
Sem encontrar resposta, apenas age por impulso. Leva as mãos ao cinto do robe e o desfaz com calma. Deixa que o tecido escorregue pelos ombros e caia suavemente ao chão.
Embora não estivesse com uma roupa de banho adequada, vestia a lingerie azul que a mãe lhe deu mais cedo — delicada, elegante, e agora, sob o luar, ainda mais reveladora.
Ela hesita por um segundo, mas a água a chama.
Dá um passo, depois outro, até sentir o calor acolhedor tocar sua pele. E então, num mergulho silencioso, se entrega à temperatura deliciosa da piscina, que a envolve como um abraço.
Lá embaixo, o mundo silencia.
Ava fecha os olhos sob a água, como se quisesse que tudo sumisse — as lembranças, a mágoa, o orgulho ferido… Por alguns segundos, o silêncio submerso lhe dá essa falsa sensação de paz.
Mas, ao abrir os olhos ainda ali, envolta pela leve pressão da água quente, uma sensação ruim a domina.
Um estalo na mente. Uma memória. Um susto.
Subitamente, ela se vê de novo naquele dia. Dentro do carro. Tentando abrir a porta com o desespero de quem luta contra o tempo. A água invadindo tudo, o pânico crescendo. Lembra do momento em que conseguiu se soltar, nadar, procurar a superfície antes que o ar se esgotasse por completo.
O desespero a invade outra vez. Seu corpo entra em estado de alerta. Então ela começa a bater os braços com urgência, tentando subir, mas a mente a trai — como se ainda estivesse presa, afundando.
E então, braços fortes a envolvem. Apertam-na com firmeza. Guiando-a para cima.
Num segundo, ela emerge, ofegante, com os olhos arregalados, os cabelos colados ao rosto, e o peito subindo e descendo com rapidez.
Hector está ali. Na água com ela. Segurando-a com força, com o olhar atento, assustado.
— Ava… o que houve? Estava se afogando? — pergunta preocupado, enquanto a mantém firme contra o próprio peito.
Ela tenta falar, mas o ar ainda lhe falta. A respiração sai trêmula, como se as emoções e a água competissem pelo espaço dentro dela.
Ele a encara, esperando uma resposta, e então entende — aquilo não foi apenas um susto. Havia algo mais profundo, mais sombrio por trás do desespero dela.
Sem pensar duas vezes, a puxa com cuidado para mais perto e a envolve em um abraço firme, protetor. Ava permanece tensa no início, mas lentamente o corpo cede, ainda tremendo levemente.
— Ei… não passou de um susto — sussurra contra seu ouvido, com a voz calma e confiante. — Está tudo bem agora. Eu estou aqui.

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