— Diabos, será que não posso ter um minuto de paz? — Hector pragueja, ao vê-la sair, batendo a porta com raiva.
Assim que a frase escapa de seus lábios, ele se dá conta do ambiente onde está. Congela por um momento, olha em volta e então fixa os olhos no crucifixo à frente.
— Desculpas — diz, erguendo as mãos. — Não foi uma invocação, apenas uma expressão… inadequada, reconheço.
Visivelmente constrangido, ele se levanta para sair, no entanto, dá meia volta e caminha até o pequeno altar com passos lentos e respeitosos. Permanece alguns segundos em silêncio antes de falar outra vez.
— Eu não costumo frequentar este tipo de lugar com frequência, mas… eu o repeito — comenta, mantendo o olhar firme na cruz em cima do altar. — E já que estou aqui… será que dá para dar uma ajudinha? Eu sei que não tenho muita moral para pedir algo.
Engolindo em seco, ele prossegue:
— Cometo deslizes, como mentiras e... palavras inapropriadas, como o senhor acabou de ouvir. Mas quanto à Ava… nesse momento, eu queria muito que desse certo.
Ele desvia o olhar por um instante, como se ponderasse cada palavra.
— Se o Senhor puder intervir… de alguma forma… eu agradeceria. Profundamente.
Assim que encerra aquela pequena oração improvisada, Hector se vira e deixa a capela, caminhando em direção ao consultório de Mark.
— Ele está ocupado? — pergunta à assistente do amigo, ao se aproximar da recepção.
— Não, senhor. O paciente anterior acabou de sair.
— Perfeito — murmura, já abrindo a porta do consultório sem esperar anúncio.
Assim que o vê entrar, Mark ergue os olhos. Seu olhar analítico logo percebe o abatimento no rosto do amigo.
— Conseguiu encontrá-la?
— Sim… mas não conversamos muito.
— Sabe o que houve?
— Ainda não. Mas preciso descobrir. Qual o nome do médico que a atendeu?
— Na verdade, é uma médica. Doutora Helena Hills, ginecologista especialista em reprodução assistida — informa Mark.
— Será que consigo falar com ela agora?
— Vou solicitar que minha assistente verifique isso.
Mark pega o telefone e conversa brevemente com sua assistente. Após alguns minutos, ela retorna com a resposta.
— A doutora está disponível e já o aguarda no consultório.
Hector se despede com um aceno e segue até o local indicado. Ao entrar, nota de imediato que a médica parece surpreendentemente jovem, talvez até mais nova do que ele. Mesmo tenso, não deixa de perceber o olhar que ela lança, percorrendo-o dos pés à cabeça com uma certa curiosidade. E, por um instante, tem certeza de que ela mordeu levemente os lábios ao analisá-lo.
— Hector Moreau, certo? — diz ela com um sorriso, levantando-se da poltrona para recebê-lo.
— Sim — responde ele, estendendo a mão para cumprimentá-la.
No entanto, para sua surpresa, a doutora se antecipa ao gesto formal, o abraça brevemente e deposita um beijo leve em seu rosto.
— É um prazer recebê-lo aqui, senhor Moreau — sussurra perto de seu ouvido, antes de se afastar.
Embora tenha se sentido um pouco desconfortável com aquela aproximação inesperada, ele decide ignorar e se senta, mantendo a postura.
— Peço desculpas por aparecer assim, mas estou realmente preocupado com a saúde da minha esposa.
— Ah, claro… — responde a médica, revirando os olhos sutilmente, mas perceptível. — A Ava acabou de sair daqui… e nem me deu a chance de concluir a consulta.
Ela cruza as pernas e solta um suspiro, como se estivesse levemente irritada.

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