Ao entrar na cozinha, Hector encontra Doris terminando de preparar o almoço.
— Só me faltava essa… — murmura para si, visivelmente incomodado.
— Tenha um pouco de paciência, Hector. Tenho certeza de que logo sua tia vai se entediar e voltar para aquele país gelado dela.
— Eu queria que fosse hoje — dispara, sem rodeios.
— Não diga isso — Doris aconselha, erguendo uma sobrancelha. — Se ela desconfiar que não é bem-vinda, vai fazer exatamente o oposto e se instalar de vez.
— É... nisso você tem razão. Mas justo hoje ela tinha que aparecer?
— O que aconteceu? — pergunta preocupada.
— A Ava… — responde, soltando as palavras como se esperasse que Doris compreendesse tudo só com o tom da sua voz.
— Tenho certeza de que ela vai saber se comportar com a sua tia por perto.
— Esse não é o problema — explica.
— Então, qual é? — indaga, parando o que estava fazendo para encará-lo.
Hector olha ao redor, como se quisesse garantir que ninguém mais ouviria, depois coça a barba com impaciência.
— Deixa quieto… Ela já sabe que Margot está aqui? — Muda o assunto.
— Tentei avisar, mas quando bati na porta, ela gritou para eu não a incomodar.
— Prepare o quarto da minha tia e da Estelle. E chame mais algumas funcionárias — suspira. — Com essas duas aqui, você vai precisar de reforço.
— Pode deixar.
— Vou ver a Ava.
Evitando a sala principal, segue direto para o quarto de Ava. B**e uma vez e recebe o silêncio como resposta. B**e novamente.
— Ava, por favor, abra a porta. Precisamos conversar.
— Vá embora! — ela grita do outro lado.
— Não é sobre nós, eu prometo.
Após alguns segundos de silêncio, a porta se abre lentamente. Ava está diante dele, abatida, como os olhos vermelhos e o semblante cansado.
— O que foi agora?
Ele entra rapidamente e fecha a porta atrás de si.
— Eu não quero você no meu quarto — diz ela com frieza.
— Eu sei. Mas isso é por uma força maior — responde, andando até a janela.
— Então fala logo e sai daqui — ordena, com os braços cruzados.
Encarando-a, sente o peito apertar. Queria tanto abraçá-la, dizer que tudo ficaria bem… mas se limita à verdade:
— Temos visitas.
Ava franze o cenho.
— Quem?
— Margot. Minha tia. Ela mora em Genebra. Apareceu de surpresa com a filha, Estelle. Disseram que vão passar um tempo aqui.
— Perfeito. Era só o que me faltava — ela revira os olhos com sarcasmo.
— Eu também não estou nada satisfeito com isso. Mas não posso mandá-las embora.
— E quer que eu faça o quê?
— Que finja ser mesmo a minha esposa — responde com firmeza.
— Por quanto tempo?
— Eu não sei. Espero que não seja muito.
— Tudo bem. Vou manter as aparências. Agora pode ir — diz, indo até a porta.
— Espera — ele a detém com a voz baixa.
— O que mais?
— A gente vai ter que dividir o quarto — diz de uma vez. — Se ela perceber que dormimos separados, vai me infernizar.
Devagar, Ava gira o pescoço, como quem precisa se acalmar para não explodir.
— Por acaso isso faz parte de algum plano seu?
— Claro que não! — rebate, ofendido. — Eu juro, não sabia que elas viriam.

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