Ofendida com as palavras cruéis da mãe, Estelle fecha o livro com força e o deixa de lado. Seus olhos ardem, mas ela não quer chorar ali, na frente de Margot. Então, levanta-se de repente e sai correndo, ignorando os chamados impacientes da mãe.
Precisava de um lugar para ficar sozinha. Um lugar onde poderia desabar sem ser julgada e nem vista.
Saindo da casa, ela atravessa o quintal. Caminha pelo jardim, desviando de flores e árvores até encontrar um cantinho escondido, entre arbustos altos e uma pequena fonte. Ali, senta-se no chão, abraça os próprios joelhos e deixa as lágrimas caírem.
Ela chora em silêncio, sufocada pela dor que já conhece tão bem. A humilhação da mãe pesa como chumbo. Margot não disse nada que ela já não soubesse… mas ouvir em voz alta ainda a machuca como se fosse a primeira vez.
Enquanto tenta conter o soluço, ouve passos se aproximando.
Imediatamente, prende a respiração, tensa. Não quer que ninguém a veja naquele estado; vulnerável, destruída. Fica em silêncio, imóvel, escondida atrás da folhagem.
Logo reconhece as vozes. São de Ava e Doris.
Ela acredita que elas vão apenas passar, mas para sua surpresa, as duas param e se sentam no banco próximo, a poucos metros de onde está escondida.
Ela hesita, pensando em se levantar e sair, mas o peso no peito a impede. Então permanece ali, quieta, invisível. Não era sua intenção ouvir nada, mas as palavras das duas a atingem como flechas.
— Meu Deus, Doris… — diz Ava, levando as mãos à cabeça, indignada. — Como você consegue deixar que aquela mulher fale com você daquele jeito?
— Eu não ligo para Margot — responde Doris, com um sorriso cansado. — Ela sempre foi desse jeito.
Virando-se para ela, incrédula, Ava questiona:
— Então quer dizer que ela sempre te tratou desse jeito?
— Sim. Mas, como eu disse… não me importo.
— E o Hector? Ele nunca te defendeu?
Mexendo nas mãos, Doris abaixa a cabeça.
— Ele não sabe de nada — confessa.
— Como assim?
— Ela costuma falar aquele tipo de coisa quando ele não está em casa — revela, soltando um suspiro. — Nunca quis envolver ninguém. Achei melhor aguentar calada do que causar problema.
Sentindo o sangue ferver, Ava aperta os lábios.
— Isso é absurdo. Você não devia aguentar calada.
— Ava… — diz ela suavemente. — Eu já me acostumei. É mais fácil assim. Logo, Margot se sentirá entediada e irá embora para casa.
— Mas você entende que não é só isso que me revolta? — pergunta, nervosa. — Você é a mãe dele, Doris. Nem devia estar nesta casa como empregada.
Doris arregala os olhos e olha rapidamente para os lados, com o coração acelerado.
— Por favor, não diga isso em voz alta — pede num sussurro, aflita. — Se alguém escuta…
— Ninguém vai escutar, não se preocupe. A Margot e a Estelle devem estar no quarto.

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