Querendo desesperadamente tirar o foco da filha, Margot pigarreia alto, exagerando na falsa tosse para chamar atenção.
— Estamos aqui há horas e nada do jantar ser servido… — comenta, com um sorriso forçado, mas o tom de crítica. — Além disso, parece que sua esposa não vai nos acompanhar, não é mesmo, Hector?
A provocação é clara.
Mas, acostumado com as alfinetadas da tia, Hector apenas sorri com charme e calma.
— Ela virá, não se preocupe — responde, com a voz tranquila. — Tivemos um pequeno contratempo… nada grave.
Ele então pisca discretamente para Margot, com o sorriso cínico que ela tanto detesta.
Margot arregala os olhos, visivelmente constrangida, e engole em seco. Por um instante, não sabe o que dizer. A insinuação silenciosa a incomoda mais do que deveria.
Tentando conter o riso, Mark morde o lábio inferior e Estelle, mesmo permanecendo quieta, curva o canto da boca com um sorrisinho quase imperceptível.
Alguns minutos depois, Ava surge na sala. Ela caminha com elegância até o grupo e cumprimenta a todos com um sorriso.
— Boa noite — diz, com a voz suave, mas segura.
Margot apenas acena com um sorriso tenso.
— Boa noite, Ava. É um prazer revê-la — Mark diz com educação.
Ava retribui o cumprimento e, sem hesitar, senta-se ao lado do marido no sofá. Ele acompanha cada movimento dela com os olhos, como se não conseguisse evitar.
E de fato… não consegue.
O olhar dele percorre o rosto dela, depois desliza discretamente pelo pescoço, pela curva dos ombros e volta para os olhos, como se tudo ali o fascinasse.
Do outro lado, Mark percebe e observa a cena com um leve sorriso no canto dos lábios. Conhecia bem demais o amigo para não notar aquele olhar. Achava engraçado, quase inacreditável, ver Hector daquele jeito: encantado, distraído… vulnerável.
Sem dizer nada, apenas ergue a sobrancelha e toma mais um gole da bebida, divertindo-se silenciosamente com o que vê.
Quando o clima na sala parece, enfim, encontrar certa harmonia, Margot mais uma vez toma a palavra, como se o silêncio alheio fosse um convite direto para que ela voltasse a ser o centro das atenções.
— Espero que vocês tenham reparado no meu vestido esta noite — diz, alisando o tecido com uma expressão satisfeita. — É uma peça exclusiva de um estilista francês que, aliás, só atende com horário marcado. Pessoalmente. Nada de loja, nada de vitrine. Um atendimento… seletivo.
Impaciente, Hector ergue os olhos.
— Escolhi a dedo para esta ocasião — continua ela, empinando o queixo. — Porque, convenhamos, elegância não se improvisa. Ou a pessoa tem, ou não tem.
— Aposto que sim, tia — ele diz, com a voz irônica.
Doris entra na sala e anuncia com um sorriso:
— O jantar já está servido.
Antes de qualquer um, Margot se adianta.
— Até que enfim! — exclama, levantando-se abruptamente. — Já não aguentava mais esperar.
Sem esperar resposta, ela segue em direção à sala de jantar, como se tudo girasse ao redor dela e do próprio ego.

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