Já sozinho com Doris, Hector pressiona os punhos contra as laterais do corpo, tentando conter a fúria que ainda pulsava em cada veia. Seus ombros sobem e descem com a respiração acelerada, enquanto ele tenta manter um mínimo de controle.
— Sente-se — ordena, apontando para a cadeira à frente da mesa, sem sequer olhar diretamente para ela.
Mas Doris continua estática no meio do escritório, com os olhos marejados, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. Suas mãos tremem discretamente, presas ao avental, e ela sequer ousa piscar.
Ao perceber que ela não iria se mover, Hector dá um passo. Depois outro. Começa a andar em círculos ao redor dela, devagar, como um predador farejando o medo da presa.
— É melhor começar a falar — ele murmura, amargo, parando bem atrás dela. — Você mentiu para mim a vida toda, Doris. Por qual motivo?
Por um momento, ela fecha os olhos e as lágrimas, silenciosas, escorrem por suas bochechas marcadas pelo tempo.
— Juro que nunca quis que fosse assim — sussurra, com a voz trêmula.
Soltando uma risada seca e sem humor, Hector comenta:
— Não? — repete, sarcástico, com os olhos ainda cravados nela.
— Eu só queria que você vivesse sua vida em paz… do jeito que sempre viveu — tenta explicar, num fio de voz.
— Em paz? Achando que minha mãe tinha morrido?
— Isso mesmo! — rebate de imediato, com os olhos úmidos e firmes. — Você sempre achou que tinha uma mãe importante, então queria que continuasse pensando assim…
Como se precisasse se mover para não explodir, Hector volta a andar em círculos. As palavras dela batiam e ricocheteavam como se fossem em outra língua.
— Você acha mesmo que era isso que me importava?
Ela hesita. Então solta, como quem carrega o peso por anos.
— O seu pai… ele me mataria se eu contasse.
Com os ombros tensos, ele para no meio do caminho.
— E depois que ele morreu? — vira-se de uma vez, encurralando-a com o olhar. — Me responde, Doris. Por que diabos não me contou?
Ela ergue a cabeça devagar, revelando um pouco de coragem e desespero no olhar.
— Para quê? Me diz… para quê? Você já era um homem feito, respeitado, seguro de si. Para que eu ia me meter e dizer que, na verdade… eu sou a sua mãe.
O silêncio que segue parece mais pesado que qualquer grito.
— Quando você nasceu, ele me deu duas opções: ou eu sumia da sua vida para sempre… ou ficava por perto, cuidando de você, como se fosse só mais uma funcionária da casa. Sem nunca te contar a verdade.
Calado, Hector apenas observa.
— Eu aceitei. Não porque era fácil. Mas, porque, entre não ter você e te ver crescendo, mesmo que de longe… eu escolhi te ver crescer.
Ela baixa os olhos, suas mãos trêmulas demonstravam o quanto falar daquilo era dolorido.
— No começo, eu pensava que ia doer menos com o tempo. Que um dia eu ia ter coragem de te contar. Mas ele sempre fazia questão de me lembrar do meu lugar.

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