Na sala, Estelle chora sem conseguir se conter. Sentada no sofá, ela mantém o rosto entre as mãos enquanto as lágrimas escorrem sem pausa.
— Eu sinto muito… sinto muito mesmo — diz entre soluços. — Nunca foi minha intenção escutar a conversa de vocês, e muito menos falar sobre o que ouvi. Mas… quando vi a minha mãe tratando a Doris daquele jeito… me deu tanta raiva. Eu não pensei. Simplesmente… falei.
Ava, que até então a observa em silêncio, se aproxima e toca o ombro da moça.
— Calma, Estelle. Não fica assim. De um jeito ou de outro, essa verdade viria à tona. Você só antecipou o inevitável.
Com os olhos vermelhos e cheios de culpa, Estelle ergue o rosto.
— Você acha que a Doris vai me odiar?
— Claro que não — responde depressa. — Ela sabe que seu coração é bom. E também sabe o quanto você foi corajosa.
Mesmo respirando fundo, o medo ainda pairava no olhar da moça, que não conseguia parar de se sentir culpada.
— E o Hector? — pergunta, quase num sussurro. — Você acha que ele está bravo com o que aconteceu?
Ava hesita por um instante, escolhendo bem as palavras.
— Acho que ele está surpreso. Mas com certeza ele não te culpa por isso. — Ela aperta de leve o ombro de Estelle.
Ainda insegura, Estelle comenta.
— Talvez seja melhor eu arrumar minhas coisas e ir embora com a minha mãe… Acho que trouxemos emoções negativas demais para essa casa.
Sem acreditar no que acaba de ouvir, Ava protesta.
— Não toma decisões no calor do momento. Espera as coisas esfriarem. Você não fez e nem tem culpa de nada.
Estelle passa as mãos pelo rosto, tentando enxugar as lágrimas, mas os olhos ainda continuam marejados.
— Eu só… eu só queria que tudo fosse diferente — confessa, com a voz ainda embargada. — Queria que minha mãe não fosse assim… tão arrogante, tão cega e sem coração.
— Às vezes as pessoas usam a arrogância para esconder as próprias fraquezas — diz Ava, olhando em direção à janela. — Margot vive tanto de aparência que talvez nem saiba mais quem é de verdade.
— E eu? Onde é que eu me encaixo no meio disso tudo?
Passando a mão pelas costas da moça, Ava sorri.
— Você se encaixa onde escolheu ficar: do lado certo.
O som repentino de saltos batendo apressadamente no chão ecoa pelo corredor. Em seguida, Margot surge na sala com roupas elegantes, joias reluzentes e o ar mais ofendido do mundo.
— Cadê aquele empregado? — grita, sem notar, ou fingindo não notar, a presença das duas mulheres na sala. — Que funcionário incompetente! Na hora da fofoca, ele correu para a cozinha. Agora que preciso que trabalhe, ele some! Não vou sair carregando minhas malas como se fosse uma camareira! RENATO!
Ela se aproxima ainda mais do centro da sala e lança um olhar altivo para a escada, depois resmunga:
— Eu vou embora deste lugar quanto antes. Antes que esse clima horrível estrague de vez a minha saúde. — Leva a mão ao peito num gesto dramático. — Já estou até sentindo palpitações. Ter vindo até aqui foi o pior erro de minha vida.
Estelle limpa o rosto rapidamente e se levanta, mas não diz nada, ela apenas observa a mãe como se avaliasse até onde ela estava disposta a ir com aquele teatro.
— Eu só quero ver depois como as coisas ficarão quando eu não estiver mais aqui… Rezo para que Hector recupere o juízo antes que entregue tudo isso na mão errada.
Cansada daquele jogo de indiretas, Ava se aproxima de Margot e dispara:
— Se o que está prendendo a senhora nessa casa são as malas, não se preocupe. Faço questão de carregá-las até o carro.

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