Num bar próximo à empresa, Hector se senta no banco alto, apoia os cotovelos no balcão e pede uma bebida com a voz baixa.
— Um uísque, duplo. Sem gelo.
Enquanto o garçom se afasta, ele fica ali, olhando sério para a estante de garrafas atrás do balcão. Nem parece que está escolhendo alguma, pois seu olhar está mais para quem está hipnotizado, perdido nos próprios pensamentos. Aquele tipo de silêncio que só gente cheia de coisa na cabeça carrega.
A manga da camisa está dobrada como se tivesse passado o dia inteiro lutando com o mundo. O que, de certo modo, é bem verdade.
O copo chega, ele agradece com um aceno quase imperceptível e bebe um gole como se fosse água. Fecha os olhos por um segundo, mas aquilo não ajuda muito.
Tudo parece girar em torno de uma revelação. O passado inteiro parece se bagunçar.
A porta do bar se abre com o som irritante do sino e Mark entra. Ele avista Hector e vai direto até ele, sem rodeios. Puxa o banco ao lado e se senta, largando o celular no balcão como se aquilo fosse um ritual de chegada.
— O que foi agora?… Não me diga que deu tudo errado com a Ava — pergunta Mark, apoiando os braços no balcão, já esperando algum drama digno de reviravolta.
Hector nem se mexe. Só vira o copo, encara o fundo vazio por um instante e murmura, com a voz baixa, quase rouca:
— Não… foi algo muito pior.
Soltando uma risadinha nervosa, Mark tenta quebrar o clima pesado.
— Pior que isso? — leva alguns segundos pensando. — Você descobriu que está falido? Ou que a Ava te enganou?
Sem humor nenhum, Hector balança a cabeça devagar.
— Eu descobri que a Doris é minha mãe.
Mark arregala os olhos.
— O quê?
Há um silêncio por uns segundos, até que Mark volta a falar.
— Tá. Uau… — Ele coça a nuca. — Por essa, eu não estava esperando.
Um sorriso amargo se forma nos lábios de Hector, mas logo se esvai.
— É. Bem-vindo ao meu novo inferno pessoal.
Fazendo um sinal para o garçom, Mark pede.
— Traz mais dois. Um para mim, e outro para o trauma do meu amigo aqui.
Com as bebidas em mãos, os dois ficam um tempo em silêncio. Hector bebe devagar agora, como se quisesse saborear o álcool para ver se ele ajuda a digerir tudo. Mark só observa, respeitando o tempo do amigo até que Hector começa a falar, e quando começa, vai até o fim.
Conta tudo. Desde a confissão de Estelle, o olhar de Doris, a conversa no escritório, o choque, a raiva, a culpa, o silêncio pesado. Não omite nada. Não força a voz. Só fala. E Mark ouve, como sempre fez.
Quando Hector termina, só o som ambiente do bar permanece por alguns segundos. Até que Mark solta, pensativo:
— Isso explica a preocupação exagerada que a Doris sempre teve com você.
— Você acha mesmo?
— Acho. — Mark dá de ombros. — Não era coisa de funcionária. Era outra coisa. Sempre foi.
Hector não responde.
Depois de um tempo, Mark pergunta, com a calma de quem já entendeu que a resposta não é simples:
— E agora? O que vai fazer?
Com um suspiro cansado, ele responde:

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