Como um homem que sempre teve a vida resolvida ao seu modo, Hector não sabia exatamente como lidar com as novas adversidades que surgiam de repente. Então, fez o que sabia melhor: ignorar. Não por frieza, mas por pura autopreservação. Fingir que estava tudo bem era mais fácil do que encarar de frente o que doía.
A respiração dos dois desacelerando, enquanto estão deitados no sofá de seu escritório, é o único som do ambiente.
Ele está deitado de lado, com o braço em volta de Ava, enquanto seus dedos passeiam devagar pelas costas dela. Ela repousa a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas do seu coração.
— Então… — ela começa, com a voz baixa, preguiçosa, arrastando o “então” como quem testa o terreno. — Está mais calmo após a minha ajuda?
Com a mão ainda acariciando as costas dela, ele ri baixinho.
— Melhor ajuda da minha vida — brinca.
— Idiota — ela murmura, dando um leve tapa no peito dele, mas sorrindo.
Ele segura a mão dela e beija os dedos, um a um, com calma.
— Estou falando sério. Eu precisava disso… de você.
Ava levanta o rosto, com os cabelos levemente bagunçados, e o encara nos olhos.
— Fico feliz por ter ajudado-o, mas queria que soubesse que eu não sirvo apenas para isso.
Por um instante, ele desvia o olhar, como se estivesse procurando as palavras certas. Mas Ava não dá espaço para ele fugir. Segura o queixo dele com delicadeza e o obriga a encará-la.
— O que foi? — pergunta, num tom mais sério. — Acha que não?
Ele suspira, passando a mão pelos cabelos bagunçados, claramente sem paciência para uma conversa profunda naquele momento.
— Não é isso… — confessa. — Só não quero falar sobre nada agora.
Com calma, como quem entende o tempo dele, ela o beija suavemente, no entanto, não deixa barato.
— Então a gente vai ser um casal que só transa e pronto?
Colando o corpo dela ao seu, ele sorri de canto e rebate.
— Claro que não… — murmura. — Temos muitas outras coisas que podemos fazer juntos.
— Tipo o quê? — ela retruca, na hora, arqueando uma sobrancelha. — Me fala aí. Estou curiosa.
Ele pensa por alguns segundos e então começa a listar, com a voz mais baixa e o tom brincalhão:
— Viajar… preparar o café da manhã num domingo… discutir por besteiras… cuidar de uma planta e deixá-la morrer juntos…
Ela ri, enterrando o rosto no pescoço dele.
— Romântico você, hein.
— Eu me esforço — ele diz, rindo também. — E um dia talvez… criar alguém juntos.
O sorriso dela some só por um segundo, substituído por um silêncio breve e cheio de significado. Ela ergue os olhos e o encara, como se quisesse confirmar que havia ouvido direito.
Mas ele apenas a beija na testa e fecha os olhos.
Sentindo o peso das expectativas dele, Ava decide ser direta.
— Acho que tem coisas que é melhor você não sonhar muito — ela diz, após alguns segundos de silêncio.
Hector franze o cenho, de imediato.

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