Assim que Ava sai e a porta se fecha com um baque, o silêncio que se instala é ensurdecedor.
Hector fica ali parado por alguns segundos, ofegante, olhando para o nada. O peito sobe e desce como se estivesse tentando conter uma explosão interna. Mas não consegue.
Ele se levanta de uma vez, num impulso cheio de raiva contida, e grita:
— Merda! — sua voz ecoa pela sala.
Agarra o copo sobre a mesa e o lança contra a parede com força. O vidro se espatifa, estourando como o último resquício de calma que ainda restava dentro dele.
— Caralho! — berra, empurrando a cadeira para o lado com um chute violento. Ela tomba no chão com estrondo.
Ele atravessa a sala com passos pesados, varrendo tudo que encontra pela frente. Arrasta a garrafa do balcão e a j**a contra a parede do fundo.
— Porra, Ava! — grita, com a voz quebrada. — Estou tentando até o inferno para tentar fazer o que é certo e o que recebo de volta é isso?!
Derruba um porta-retratos no chão com um tapa, chuta o tapete para o lado, quase tropeça nas próprias roupas. Mesmo com a respiração descompassada, o rosto vermelho e os olhos marejando, ele não para.
— Vai à merda esse sentimento de merda, essa porra toda!
Ele se apoia com as duas mãos na mesa, de cabeça baixa, tentando respirar, mas nem isso sai direito.
O escritório está um caos e ele também.
Enquanto continua de costas — apoiado na mesa, murmurando palavrões baixos tentando recuperar o controle — escuta o barulho da porta se abrir.
— Senhor Moreau, está tudo bem aí? Eu ouvi um barulh…
A voz de Janine ecoa na sala, mas a mulher não consegue terminar a frase.
Ela congela na entrada, com os olhos arregalados e a boca entreaberta de puro choque.
Hector se vira num impulso.
— Que porra é essa?!
Só então percebe: está pelado. Completamente. No meio do escritório.
A mulher pisca várias vezes, empalidece, depois fica vermelha do pescoço até a testa.
— Meu Deus… me desculpa — ela pede, tampando os olhos com as mãos e dando dois passos para trás, apavorada. — Me desculpa, eu… não vi nada!
— Saia daqui agora!
— Já estou indo.
Ela tenta fechar a porta, mas, na pressa, esbarra na maçaneta e quase tropeça nos próprios pés.
Hector se abaixa correndo para pegar uma almofada do sofá e cobre o que dá, enquanto a mulher finalmente consegue puxar a porta e sair correndo pelo corredor como quem acabou de ver o que não podia de modo algum.
Ali, no meio do caos, com uma almofada ridiculamente pequena cobrindo o básico… Hector solta uma risada. Alta, cansada, meio histérica.
— Puta que pariu, que fase.
Percebendo haver perdido totalmente o controle, ele respira fundo e caminha até as roupas espalhadas pelo chão. Um a um, vai vestindo cada item, ainda com os músculos tensionados pela raiva recente. Assim que termina, segue até o banheiro anexo, lava o rosto com água fria, encara o próprio reflexo por alguns segundos e passa os dedos pelos cabelos, tentando retomar alguma aparência de decência.
Ao sair do escritório, caminha como se nada tivesse acontecido, ou ao menos tenta parecer assim.
Ao chegar na recepção, vê Janine sentada à sua mesa, com o rosto parcialmente escondido atrás da tela do computador. Assim que percebe a presença dele, ela abaixa os olhos, finge digitar alguma coisa e aperta as teclas como se estivesse resolvendo um problema urgente da empresa.
Ele para ao lado da mesa com a postura firme e diz, com a expressão séria:
— Sinto muito por agora há pouco.
Ela engole em seco, ainda sem olhar diretamente para ele.

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