Sem bater, Hector abre a porta e entra no quarto. Ava está de costas, sentada na beirada da cama, falando ao telefone com a mãe. Ao vê-lo, leva a mão instintivamente ao peito, assustada com a entrada repentina. Ela se vira, franzindo a testa.
— Mãe, a gente pode conversar depois? — diz, tentando manter o tom calmo. — Prometo que passo aí amanhã. Está bem? Beijo.
Ela encerra a ligação e apoia o celular na mesinha de cabeceira. Seu olhar, agora cravado em Hector, é tudo menos acolhedor.
— O que deu em você? — pergunta, nervosa. — Entrar assim no meu quarto?
— Temos que conversar — diz ele, direto, com a voz firme.
— Não acho que temos algo para conversar — rebate, cruzando os braços. — E, só para deixar claro, esse aqui é o meu quarto. Já disse que não quero que entre sem bater.
— Esse quarto não é seu — protesta, já perdendo a paciência.
— É sim! — retruca, elevando o tom. — A sua tia já se foi. Não temos mais obrigação nenhuma de fingir que somos um casal. Não há motivo para dormirmos juntos.
— Mas é claro que tem! — ele rebate, dando um passo à frente.
Ava se assusta com a aproximação repentina e recua instintivamente, sem deixar de encará-lo.
— O que você quer com isso, hein? — pergunta, tensa.
— Eu quero que a gente pare de fugir — responde, com os olhos fixos nos dela. — De fingir que tudo isso aqui não importa. Você pode dizer o que quiser, mas sei que sente o que eu sinto. E não vou aceitar que a gente jogue isso fora por orgulho.
Ela ri com incredulidade, amarga.
— Você está falando de orgulho, Hector?
— Sim, eu estou. Porque eu tenho o meu, e você tem o seu — diz, com a voz mais grave. — Mas, se a gente não deixar isso de lado, vamos acabar perdendo tudo o que conquistamos até agora. — Mesmo que a voz dele saia firme, há uma pontinha de desespero por trás.
— E o que foi que a gente conquistou, Hector? — rebate, sarcástica. — Me diz.
Se aproximando devagar, sem tirar os olhos dos dela, segura-a pela cintura com força, puxando-a para si, antes mesmo que ela possa recuar.
— Isso — ele diz com a voz baixa. — A gente conquistou isso.
Ela tenta se desvencilhar, mas ele mantém as mãos firmes, e os olhos cravados nos dela, como se estivesse tentando fazê-la sentir o que estava sentindo.
— Esse fogo, essa entrega, essa explosão que acontece toda vez que a gente se encosta — continua. — Você pode fingir que não sente nada, pode dizer o que quiser, mas seu corpo te entrega toda vez.
— Isso não é conquista — ela rebate, tentando manter a voz firme mesmo com a proximidade. — Isso é só química, Hector. Instinto.
— Mentira — ele diz, apertando levemente sua cintura. — Isso é o que nos mantém vivos. E é a única coisa de que a gente não deveria abrir mão agora.
— Me solta — ela diz, mas sua voz sai trêmula.
— Não. Não até você admitir que me quer. Nem que seja só para isso por enquanto.

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