Enquanto sentia as mãos de Hector percorrendo seu corpo, Ava fechou os olhos e deixou que uma lágrima solitária escorresse por seu rosto. Sabia, no fundo da alma, que aquela seria a última vez. A última vez que se entregaria àquele toque, àquela ilusão. Por mais que desejasse se afastar, precisava sentir aquilo uma última vez… antes de ir embora para sempre.
Entrelaçados na cama, envoltos apenas pelos lençóis e pelo calor um do outro, se entregavam como nunca antes. Ela permitia que ele conduzisse cada toque, cada gesto, como se ainda fosse dele. Deixava que ele acreditasse que estava no controle, que tinha o domínio da situação, quando, na verdade, ela já sabia o que faria assim que aquele momento terminasse.
Como os braços, Hector a envolvia como se estivesse tentando protegê-la de um mundo que ele mesmo havia bagunçado. Os beijos dele eram lentos, quase reverentes, como se estivesse gravando cada segundo daquele momento na memória. E ela o deixava fazer isso… o deixava acreditar que tudo estava bem.
Enquanto os corpos se moviam em perfeita sintonia, num ritmo envolvente e íntimo, Hector a fitava nos olhos com uma profundidade que Ava não soube decifrar de imediato. O olhar dele não era apenas de desejo, havia algo mais, algo que queimava por dentro e precisava sair.
— Ava… — ele murmura, ofegante.
— O que foi? — ela pergunta, sem parar, mas com os olhos fixos nos dele, como se pressentisse algo.
— Eu amo você.
As palavras, nuas e cruas, cortam o ar como um raio. Tão sinceras, tão diretas, tão inesperadas. O corpo dela para. O coração, que já batia acelerado, perde o compasso. A garganta seca. Por um segundo, o mundo parece girar ao contrário.
Ela não esperava por isso. Não fazia parte do roteiro. Ele não deveria dizer aquilo.
Ava fecha os olhos com força, como se pudesse apagar a frase, como se aquilo não tivesse acabado de acontecer.
“Se concentra, Ava… se concentra…”, pensa, respirando fundo, tentando agarrar novamente o controle que escapava por entre seus dedos.
Mas era difícil ignorar. Três palavras. Três palavras que ameaçavam desmoronar tudo o que vinha sustentando com tanto esforço. Três palavras que ela desejava ouvir… mas não naquele momento.
Mordendo o lábio, engole a emoção que ameaça vir à tona. Precisava ser forte. Precisava lembrar o motivo de estar ali. Não podia permitir que aquela declaração enfraquecesse sua decisão.
Então, sem dizer nada, apenas recomeça os movimentos, mais lentos, mais calculados. Finge que não ouviu. Finge que não sentiu.
Mas por dentro… o coração dela sangrava.
Sem ouvir uma resposta, Hector continua a se mover com intensidade, mas por dentro, sua mente está um caos. A dúvida o corrói: teria sido cedo demais para dizer aquilo? Teria errado no momento, nas palavras?
Mesmo assim, ele não para. Continua. Como se, através daquele toque, ainda pudesse provar o que sente.
Os dois se beijam com urgência, numa mistura de desejo e agonia. Mas, naquele beijo quente, voraz, cheio de tudo que não foi dito, Ava desperta. Um alerta silencioso explode dentro dela. Se não parasse agora, perderia completamente a força para confrontá-lo. E ela precisava fazer isso. Precisava olhar para a verdade sem se render à ilusão.
Os pensamentos retornam como um vendaval. A manhã na empresa. O choque. A traição.
Hector a enganou desde o início. Primeiro, inventou um noivado, forjou fotos, manipulou lembranças e emoções. A fez acreditar num romance de conto de fadas que nunca existiu.
Enquanto ela se recuperava, confusa, vulnerável, ele deixava sua família acreditar que ela havia morrido. Foi ao próprio velório, encarou os pais dela, deu os pêsames com o mesmo rosto que agora dizia amá-la.
Tentando conter a náusea emocional que a invade, ela engole em seco. Tudo aquilo… tudo foi para ganhar tempo. A farsa do casamento. A manipulação do seu estado. A compra silenciosa das ações. Ela era apenas uma peça no jogo dele.

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