Assim que vê Ava sair do quarto sem olhar para trás, Hector permanece imóvel por alguns segundos, como se o mundo tivesse parado junto com ela. O silêncio que se instala é tão pesado quanto o vazio em seu peito. Lentamente, ele se deita no chão, sem forças para reagir, sem acreditar no que acaba de acontecer.
Passa as mãos pelo rosto, tentando conter algo que nunca soube lidar: o choro. Mas é inútil. As lágrimas escorrem, quentes, amargas, revelando uma dor que ele sequer sabia que era capaz de sentir. Chorava… chorava como nunca havia chorado antes. Não era só arrependimento, era perda. Era o colapso de tudo o que pensava ter sob controle.
Ali, no chão frio do quarto, o homem orgulhoso, estrategista e calculista estava despido de todas as máscaras. Restava apenas ele, quebrado, pequeno diante do estrago que havia causado. A única mulher que amou na vida havia ido embora. E desta vez, ele não sabia se teria uma segunda chance.
— Ava… — murmura entre soluços, como se chamar por ela pudesse trazê-la de volta.
Mas tudo o que ele ouve é o som da própria dor — não só no peito, mas também no corpo. Levando a mão à cabeça, sente o sangue escorrendo lentamente pelos dedos.
— Só me faltava isso… — murmura com amargura, se levantando com esforço.
Veste uma roupa qualquer, sem se importar com o corte nem com a dor. Vai até o banheiro, passa um pedaço de papel sobre o ferimento e observa o próprio reflexo por um instante. Os olhos vermelhos, o rosto abatido… era o retrato do fracasso.
Mas não tinha tempo para se lamentar. Precisava encontrá-la. Precisava implorar o perdão dela antes que fosse tarde.
Ao descer as escadas, é surpreendido por Doris, que arregala os olhos ao ver o sangue escorrer por sua cabeça.
— Hector! O que aconteceu? — Ela corre até ele, visivelmente assustada.
— Nada que importe agora — responde, seco. — Sabe para onde a Ava foi?
— Não. Ela saiu correndo, não disse uma palavra… Só estava chorando.
Ele franze a testa, mais angustiado ainda. Se Ava estava chorando daquele jeito, então já era tarde demais?
— Eu vou atrás dela — declara, determinado, já se dirigindo à porta.
— Mas você está ferido! Deixa eu cuidar disso primeiro, por favor.
— Eu não ligo, Doris! — rebate, firmemente, revelando os olhos marejados. — No momento, a única pessoa que importa é a Ava.
Ignorando qualquer tentativa de impedi-lo, ele sai da casa, entra no carro e dá partida.
O silêncio no veículo pesa mais do que o barulho do motor. Ele dirige com os olhos atentos e o coração acelerado, vasculhando mentalmente os lugares para onde ela poderia ter ido.
— Parabéns, Hector… — sussurra com desprezo para si mesmo. — Você conseguiu destruir a única coisa boa que já teve na vida.
As luzes da cidade passavam turvas pela janela, como reflexo da confusão que dominava sua mente. A dor latejava em sua cabeça, mas ele não podia parar agora. Não podia ser fraco. Não quando estava prestes a perder a única mulher que o fez acreditar que merecia ser amado.
Ela precisava ouvir a verdade… nem que fosse a última vez que o escutasse.
Assim que estaciona em frente à casa dos sogros, mal desliga o motor. Desce do carro apressado, com o ferimento ainda latejando e o coração apertado. Ao bater à porta, é surpreendido por Rafaela, que, ao vê-lo naquele estado, descabelado, com a camisa suja de sangue e sozinho, arregala os olhos, colocando a mão no peito.

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