Bip… Bip… Bip…
O som ritmado de aparelhos preenche o quarto silencioso. O monitor cardíaco pisca em verde, constante, como se insistisse em lembrar que, apesar do estado crítico, Hector ainda está ali. Deitado na cama, ele permanece desacordado desde o desmaio na casa dos sogros.
Seu rosto está marcado por hematomas recentes, um deles, ainda fresco, denuncia o soco certeiro de Ethan. A lateral da cabeça enfaixada revela o sangramento da pancada sofrida ao cair no chão. Os fios de cabelo levemente úmidos grudam em sua testa e sua respiração, mesmo que regular, soa fragilizada.
Ao lado da cama, Rafaela permanece sentada, com os olhos fixos no rosto do genro. Ela segura sua mão, apertando-a de tempos em tempos, como se implorasse para que ele despertasse logo.
— A ambulância chegou rápido… mas parecia que cada segundo era uma eternidade — murmura ela, olhando para o marido, que está encostado na parede, de braços cruzados e expressão fechada.
Embora ainda tenso, Ethan evita o olhar da esposa. Ele carrega nos olhos um misto de culpa e orgulho ferido.
— Eu não sabia que ele estava tão mal — diz, quase como uma defesa. — Achei que estava fingindo.
Cansada da postura endurecida do marido, Rafaela protesta:
— Ethan, ele podia ter morrido… — diz baixinho, com lágrimas nos olhos. — A Ava já passou por tanta coisa. Se ela souber que você chegou a esse ponto… que você bateu nele…
— Eu não consegui me segurar, foi mais forte que eu! — rebate, agora elevando o tom. — Deve ter acontecido alguma coisa muito séria entre eles para a Ava ter sumido assim.
— Ela não sumiu — protesta Rafaela. — Já vimos pelo rastreador do veículo dela que ela está em um dos apartamentos da empresa. Você mesmo ligou para o porteiro do prédio e confirmou que era ela. Já se esqueceu?
— Não, não esqueci — responde, passando a mão no rosto, frustrado. — Mas o que pode ter acontecido de tão grave para ela preferir se isolar lá em vez de vir nos procurar?
— Eu não sei. E enquanto o Hector não acordar, vamos continuar sem nenhuma resposta.
— Eu vou atrás da Ava — decide Ethan, dando um passo em direção à porta.
— Tem certeza disso? — Rafaela o detém com o olhar firme. — Talvez o melhor agora seja respeitarmos o espaço dela. Se a Ava ainda não nos procurou, é porque precisa de tempo. E você… — suspira — você deveria ficar aqui, esperando o Hector acordar. E quando isso acontecer, pedir desculpas pelo que fez.
— Eu não vou pedir desculpas — rebate, firme.
— Como não, Ethan? — ela questiona, inconformada. — O que você fez foi grave! Ele tem todo o direito de te denunciar. E é melhor se preparar para a reação da Ava quando souber do que aconteceu hoje.
A simples ideia de perder novamente a filha o abala. Ele desvia o olhar e, pela primeira vez naquela noite, parece realmente preocupado.
— Você acha que ela vai me odiar?
— Eu não sei, amor — responde, com a voz mais suave. — Mas uma coisa é certa: feliz, ela não vai ficar. — E, em silêncio, volta a se aproximar da cama de Hector, preocupada com o rapaz desacordado diante deles.
[…]
Na sala de reuniões, Ava ocupa o topo da longa mesa de vidro. Segura uma caneta entre os dedos com força, como se a pressão que aplica pudesse aliviar a raiva que cresce em seu peito. O olhar fixo, tenso, não disfarça a tempestade interna que ela enfrenta.
Todos os acionistas já estão presentes. Todos… menos Hector.
A ausência dele é como uma afronta, como se ele não tivesse sequer coragem de encarar as consequências dos próprios atos. Ela respira fundo, mas o nervosismo é evidente no ritmo de sua respiração e no modo como seus olhos passeiam pela sala.
O desconforto é evidente. Os demais acionistas evitam encará-la por muito tempo. Trocam olhares discretos entre si, cientes de que qualquer comentário imprudente pode acender um pavio prestes a explodir. Nenhum deles se atreve a iniciar uma conversa, muito menos a justificar o que está acontecendo.
O silêncio é quase sufocante, e a expressão de Ava, indignada, é clara o suficiente: ela não vai aceitar ser feita de idiota outra vez.
Impaciente, ela vira o rosto para Frida e pergunta, friamente:
— Por que Hector Moreau não está aqui?
A secretária se sobressalta, pega de surpresa pela pergunta, e hesita antes de responder:

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