O som dos aparelhos já havia se tornado insuportável para Doris, que não arredava o pé da beira do leito de Hector há dias. Já se passava uma semana desde que ele foi internado, e ainda assim, nenhum sinal de melhora. Nenhum movimento, nenhuma reação. Apenas o silêncio dele e o bip constante, que a fazia sentir como se o tempo estivesse congelado.
Sentada ao lado da cama, ela segura a mão dele com cuidado, como se aquele simples contato pudesse protegê-lo de todo o mal que o havia atingido. Seus dedos acariciam a pele fria do filho, enquanto os olhos marejados se fecham lentamente.
— Meu Deus… — sussurra, quase em silêncio. — Eu sei que o Hector tem os seus defeitos… Mas, por favor, não o deixe nesse estado. Não assim. Ele tem muita coisa para viver ainda… muita coisa para consertar.
Ela faz uma pausa, engolindo em seco a dor que insiste em transbordar.
— Eu daria tudo para trocar de lugar com ele. Tudo, Senhor… — murmura, apertando levemente a mão dele. — Eu só quero vê-lo abrir os olhos…
Uma lágrima escorre silenciosa por sua bochecha. O quarto permanece quieto, com exceção do bip intermitente dos monitores e da prece sussurrada por uma mãe que, por mais rejeitada que fosse, jamais deixaria de amar o filho.
— Sei que nunca poderei ouvi-lo me chamar de mãe… — ela continua, com a voz trêmula. — Mas me deixa ouvir a voz dele mesmo assim.
Encostando a testa na mão dele, permanece assim por um longo instante, como se, em silêncio, pudesse passar-lhe um pouco de vida, de coragem, de esperança. Seus dedos, entrelaçados aos dele, já estavam dormentes, mas ela não se movia, não queria soltar de modo algum, já que aquela também era uma oportunidade que estava tendo de ter contato físico com o filho.
A porta do quarto se abre devagar, e Mark entra, trajando seu jaleco branco. Desde que soube do acidente do amigo, fazia questão de acompanhar de perto sua evolução, não apenas como médico, mas como alguém que o conhecia além dos laudos e dos gráficos.
Seu semblante está abatido, os olhos marcados pelas noites maldormidas e o cansaço que a preocupação não deixava amenizar.
— Alguma coisa? — pergunta com a voz baixa, tentando conter o desânimo.
— Nada… — responde Doris, com um sorriso triste. — Nem um sinal…
Mark se aproxima devagar, fixando os olhos no rosto de Hector, que continua inchado e pálido. Puxa uma cadeira e se senta ao lado de Doris, passando as mãos pelo prontuário eletrônico que carregava.
— Eu estava analisando os novos exames dele… — começa, respirando fundo. — A pancada que ele sofreu pode não parecer grande, mas foi numa região extremamente sensível. O impacto atingiu a parte occipital do crânio, perto do cerebelo… é por isso que ele ainda não acordou.
— Isso quer dizer que… — Doris começa, com a voz falhando.
— Quer dizer que o corpo está reagindo como pode. Os sinais vitais estão estáveis, mas o cérebro está levando mais tempo para se recuperar do trauma. Cada paciente é único… e no caso dele, a mistura entre o impacto físico e o emocional pode estar prolongando esse estado.
— Ele está preso dentro de si… é isso? — pergunta Doris, com os olhos brilhando de lágrimas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo