Algumas semanas depois.
Ava está sentada atrás de sua imponente mesa no escritório, folheando documentos com atenção, mas sem conseguir absorver uma linha sequer. Sua expressão é séria, o semblante concentrado, pelo menos à primeira vista. Por dentro, no entanto, uma inquietação crescente a devora.
Mesmo imersa em pilhas de relatórios e decisões importantes, sua mente insiste em vagar. Por mais que tente manter o foco e o controle da empresa, uma pergunta ecoa em sua cabeça com frequência quase obsessiva: por que Hector ainda não apareceu?
Já se passaram semanas desde que descobriu a verdade. Longas semanas desde que saiu daquela casa, deixando para trás não apenas a mágoa, mas um homem que, apesar de tudo, mexeu com seus sentimentos de um jeito que ela não queria admitir.
E, até agora… nada.
Nem uma tentativa de se explicar. Nem uma mensagem. Nem mesmo a audácia de aparecer na empresa para reivindicar o que conseguiu com seu jogo sujo.
A ausência dele a incomoda mais do que gostaria. E era isso que mais a irritava: o fato de ainda se importar, mesmo depois de tudo. Respirando fundo, solta a caneta com força sobre a mesa e passa as mãos pelos cabelos, tentando afastar aquele nó apertado em sua garganta.
— Covarde… — murmura para si mesma. — Nem coragem teve de encarar as consequências.
Mas, no fundo, uma parte dela queria que ele aparecesse. Mesmo que fosse para discutir. Mesmo que fosse para mentir de novo. Qualquer coisa seria melhor do que aquele silêncio ensurdecedor.
Fechando os olhos por um instante, tenta conter a angústia.
— Ele deve ter ficado magoado porque eu não fui vê-lo no hospital… — murmura, mais para si mesma do que por querer uma resposta.
Fica em silêncio por um instante, apoiada sobre a mesa.
— Mas por que eu iria? — continua, com amargura na voz. — Será que ele achou mesmo que eu me importaria com um ferimento leve? Uma batidinha na cabeça devido a uma quedinha ridícula da cama?
Desde que deixou a casa de Hector e se instalou no apartamento da empresa, passou a evitar qualquer contato emocional mais profundo. Nem mesmo teve coragem de visitar os pais.
A única vez que falou com o pai, logo no dia seguinte à sua saída, foi quando ele ligou para contar que Hector havia aparecido lá, procurando por ela. Ethan, visivelmente hesitante, revelou que ambos discutiram e que, tomado pela raiva, acabou acertando um soco no rosto de Hector.
Ele estava prestes a detalhar tudo o que aconteceu em seguida, mas foi interrompido pela filha antes mesmo de concluir a frase. Firme, Ava disse que não queria saber absolutamente nada sobre Hector Moreau. Ethan insistiu, questionando o motivo com um tom preocupado, mas ela apenas respondeu que não estava pronta para falar sobre aquilo e pediu que ele respeitasse o seu espaço.
Mesmo hesitante, o pai acatou o pedido.
Desde então, as conversas se resumiam a breves trocas de palavras por telefone, sempre rasas. No fundo, ela agradecia por eles nunca mais mencionarem ou insistirem sobre Hector.
Fechando os olhos, tentando afastar a confusão de pensamentos. Levanta-se bruscamente, mas se arrepende no mesmo instante. Tudo ao seu redor começa a girar, como se o chão tivesse se movido sob seus pés. Leva a mão à testa, respirando fundo. O enjoo a atinge com força, e, por mais que tente conter, não consegue.
Apressada, se apoia na mesa e vomita na lixeira ao lado.
— Isso não está nada certo… — sussurra, ofegante.
Ela caminha até o banheiro, lava a boca e, ao se encarar no espelho, sente um arrepio. Está pálida, os olhos fundos, o semblante cansado. Aquilo já vinha acontecendo há dias, mas naquela manhã, o mal-estar parecia mais intenso. E impossível de ignorar.
— Preciso ir ao médico. Agora. — diz em voz baixa, decidida.
Volta para a sala, pega a bolsa, desliga o computador e, sem olhar para trás, deixa o escritório, decidida a enfrentar o que quer que aquele mal-estar estivesse tentando lhe dizer.

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