No quarto de hospital, Hector caminha de um lado para o outro, inquieto. Os passos lentos e impacientes refletem a tentativa frustrada de afastar os pensamentos que o cercam; insistentes, sufocantes, inevitáveis.
— Você precisa se acalmar — diz Doris, sentada na poltrona ao lado da cama, observando-o com preocupação.
— Já cansei de ficar preso aqui — retruca, sem parar de andar.
— Eu sei — ela responde calmamente. — Mas o médico foi claro: ainda é preciso ficar em observação por mais alguns dias.
— Mas esse lugar me sufoca, Doris. Essas paredes, esse silêncio… tudo aqui me lembra o que eu posso perder.
Ela suspira, mantendo a paciência.
— Eu entendo. Mas, nesse momento, a sua saúde precisa vir em primeiro lugar.
Parando por um instante, ele encara a janela fechada e respira fundo.
— Eu até penso nisso, penso em melhorar… mas agora isso não é suficiente. O que me consome é não saber o que está acontecendo com a Ava. Meus advogados já deviam ter me dado alguma resposta. E se ela… se ela não quiser mais saber de mim?
— Hector… — Doris diz, com delicadeza — o que tiver que ser, será.
Ele solta um riso amargo.
— Queria conseguir acreditar nisso. Mas se ela não me perdoar… o que vou fazer da minha vida, hein? Me diz? Sei que não devo esperar pelo seu perdão, mas eu não consigo me imaginar sem ela.
O desespero em sua voz deixa Doris visivelmente abalada. Por mais que estivesse feliz em vê-lo finalmente apaixonado, algo que por tanto tempo pareceu impossível, também sentia um medo sutil, medo do que aconteceria com ele se Ava o descartasse.
“Como ele lidará com a rejeição?”
Ela não tinha essa resposta. E isso a deixava inquieta. Conhecia bem o coração de Hector, nunca o viu tão vulnerável, tão à beira de um precipício emocional. O medo de vê-lo despencar era real. E ela não sabia se conseguiria segurá-lo, caso Ava o empurrasse para longe de vez.
Alguns minutos depois, a porta do quarto se abre. Os dois advogados entram em silêncio, com expressões neutras demais para o momento.
Hector se endireita de imediato, revelando o olhar ansioso.
— Não façam suspense. Me digam logo o que ela disse.
O mais velho dos dois dá um leve suspiro antes de responder:
— Ela… não disse nada, senhor.
— Nada? — repete Hector, confuso.
— A senhora Smith apenas leu os documentos, assinou todos e se despediu de nós. Sem nenhuma reação… nem uma palavra.
O silêncio pesa como um golpe. Hector aperta os punhos, sentindo-se mais tenso.
— Ela leu a minha carta?
— Sim, senhor. Com atenção. Do começo ao fim.
Ao engolir em seco, sente a garganta arder. A esperança, que ainda lutava para existir, começa a vacilar.
— E mesmo assim… — sussurra, mais para si do que para os outros, sentindo o vazio da ausência de resposta como um corte invisível.
Doris observa em silêncio. Não há palavras que possam suavizar o que aquele silêncio de Ava poderia significar dali em diante.
— Tudo bem. Obrigado por tudo — diz ele, tentando manter a compostura. — Vocês fizeram exatamente o que pedi. Sou grato por isso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo