Respirando fundo, Doris enxuga rapidamente as lágrimas com as costas da mão e toca o ombro dele, que permanece de cabeça baixa, como se não tivesse coragem de encará-la novamente.
— Você não precisa ser perfeito, Hector — confessa. — Nunca precisou. Eu nunca estive aqui devido às suas virtudes. Estive porque, mesmo nas suas sombras, eu enxergava o menininho que o médico colocou em meus braços assim que nasceu.
Ela coloca a mão sobre a dele com ternura.
— E você merece, sim, ser o meu filho. Mesmo com todos os erros, mesmo com tudo o que fez ou deixou de fazer. Você merece ser amado. Porque está tentando mudar. Está sentindo. Está enfrentando o que sempre fugiu.
Ele levanta o olhar, com os olhos marejados e surpresos por vê-la falar com sinceridade.
— Eu te machuquei tanto…
— Sim — ela admite, com honestidade. — Várias vezes. Mas ainda estou aqui, não estou?
— Por quê?
Doris sorri, um sorriso pequeno, doído e cheio de verdade.
— Porque amar é isso. É permanecer, mesmo quando o outro não sabe como receber. Mesmo quando o outro rejeita, afasta, grita. E, porque fiz uma promessa para mim mesma, há muito tempo: que você nunca se sentiria sozinho no mundo. E até meu último dia… vou cumprir essa promessa, mesmo que você não me queira por perto.
Ele leva a mão ao rosto, tentando conter o choro que começa a romper sua resistência.
— Eu não sei o que fazer com tudo isso…
— Você não precisa saber agora. Só precisa aceitar. E permitir que, pela primeira vez… alguém fique com você, mesmo quando você se sente sem valor.
As palavras de Doris ecoam em seu coração como um bálsamo inesperado. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, ele se permitisse ser acolhido, sem defesas, sem orgulho. Um calor suave toma conta do peito, não o calor da vergonha ou do remorso, mas o de um amor antigo, silencioso e incondicional.
Naquele instante, ele percebe: não estava sozinho. Nunca esteve.
E o amor que o envolvia agora não vinha de qualquer pessoa, vinha da mulher que sempre esteve ali, mesmo quando ele se recusava a ver. A mulher que nunca viu como mãe, mas que sempre cumpriu esse papel com a alma inteira.
Durante toda a infância, ansiou pelo calor de um colo materno, achando que nunca conheceria e agora estava ali, diante da mulher que sempre o amou incondicionalmente em silêncio.
Vencido pela emoção, ele se inclina e a abraça com força, como se tentasse recuperar anos perdidos em um único gesto.
— Me perdoa, mãe… por tudo — sussurra, com a voz falha, afundando o rosto no ombro dela.
Tomada pela emoção, Doris desaba. Chora com ele, mas dessa vez não era dor. Era alívio. Era cura. Era o abraço que esperou por toda a vida, não de um patrão, não de um jovem revoltado, mas de um filho. Seu filho.
Naquele momento, todo o sofrimento, os anos de silêncio, as humilhações engolidas, os dias em que quase desistiu, tudo ganha um novo sentido.
Valeu a pena.
— Filho… — sussurra ela, entre lágrimas — eu sempre vou te perdoar. Não importa o que aconteça. Sempre.
E, pela primeira vez, ele acredita.
Por mais que aquele abraço fosse o melhor que já tinham compartilhado, Doris se afasta com delicadeza, passando a mão nos cabelos dele, como se ainda estivesse cuidando do menino que criou com tanto carinho.
— Agora descanse, filho — diz, com um tom calmo e protetor. — Você precisa ficar forte para tudo o que ainda virá.
Hector obedece sem questionar. Caminha até a cama e se senta na beira do colchão, ainda imerso na mistura de emoções que o envolvia. Não chega a se deitar, apenas repousa as costas sobre o travesseiro e fica em silêncio, olhando para o chão, mergulhado em pensamentos.
— Eu tenho certeza de que esse não é o fim entre você e Ava — diz Doris, sentando-se novamente. — Porque, se você pensar bem… ela não disse nada positivo, mas também não disse nada negativo.
Ele ergue os olhos para ela, lentamente. As sobrancelhas se erguem de dúvida, mas há um brilho novo que cresce em seu olhar.
— Você acha mesmo isso?

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