Quando Ava retorna, já vestida com o avental, deita-se na maca, um pouco desconfortável. Helena coloca as luvas em silêncio, faz um sinal para a assistente preparar o equipamento e posiciona o transdutor.
— Vamos começar — diz a médica.
Ava assente com a cabeça, tentando manter a calma. Doris continua ali, firme, sem tirar os olhos de Helena.
O exame transvaginal começa. Helena observa atentamente o monitor, mantendo o rosto sério enquanto dita termos técnicos à assistente, que anota tudo em silêncio. Conforme os segundos passam, o semblante da médica começa a mudar. Sua testa se franze levemente, o maxilar trava e ela desacelera os movimentos com o transdutor.
Por fim, ela abaixa o olhar, evita encarar Doris, e fixa os olhos em Ava.
— Está tudo certo? — Ava pergunta, sentindo o nervosismo crescer no peito.
Hesitando, Helena desvia o olhar para o canto da sala, depois volta para a paciente, visivelmente desconcertada. A presença de Doris ali torna impossível qualquer manipulação fácil.
— Vamos terminar primeiro — responde, tentando recuperar o controle, mas o incômodo já é evidente.
Após alguns minutos, Helena retira o transdutor com mais firmeza do que o necessário, faz um leve sinal para que a assistente se afaste e limpa as mãos devagar com um lenço descartável. Em seguida, cruza os braços e encara Ava com um olhar tenso.
— Doutora… o que está acontecendo? — Ava pergunta, com o coração acelerado.
Sem esconder o desconforto, Helena respira fundo e diz:
— Como eu já suspeitava desde o início, há sinais de complicações sérias aqui. Me parece um caso clássico de síndrome de transfusão feto fetal. Um dos bebês está recebendo mais sangue do que o outro… e isso pode ser fatal para ambos.
Ava fica pálida na mesma hora.
— O quê? — sussurra, tentando processar. — Você tem certeza disso?
— Os batimentos de um deles estão mais fracos e o tamanho já está começando a mostrar discrepância. O quadro é preocupante. Em situações como essa, é comum que um dos fetos acabe não resistindo, e o outro também corre riscos.
Doris dá um passo à frente e pergunta:
— Tem certeza absoluta do que está dizendo, doutora? — ela pergunta com a voz cortante.
Incomodada com a intromissão da mulher, Helena responde:
— Eu sou médica. Tenho experiência suficiente para reconhecer esse tipo de padrão — fala com frieza.
Ainda deitada na maca, Ava engole em seco, mas decide não recuar.
— E o que a senhora me sugere fazer? — pergunta, tentando manter a voz firme, mesmo com o coração disparado.
Helena a encara por alguns segundos, depois respira fundo, como se ponderasse se deveria ou não falar.
— Ava, você sabe que sou sincera com você e nesse caso, não serei diferente. Eu sugiro que interrompa a gestação. — dispara, sem rodeios. — Essa síndrome, quando chega nesse estágio, costuma ser fatal para um dos bebês. E se você insistir em continuar, corre o risco de perder ambos… ou a própria vida.
Doris aperta o punho discretamente no bolso, mas não diz nada.
Processando aquela sentença, Ava sente um nó se formar em seu peito. A certeza finalmente se impõe: aquela médica nunca esteve ao seu lado. Por trás da frieza e dos diagnósticos alarmantes, havia algo mais sombrio. Aquilo não era cuidado, era manipulação.
A dor de mais uma traição lateja por dentro, mas ela engole seco. Não podia se deixar quebrar ali. Algo dentro dela gritava que precisava manter o controle. Manter o personagem.
Com calma, se limpa, como se fosse apenas mais uma consulta, e levanta da maca, encarando a médica.
— Não posso fazer isso, doutora. Você sabe o quanto ter um filho é o meu sonho.

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